O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara o envio de cerca de 21.000 toneladas de ajuda a Cuba. A operação inclui alimentos e medicamentos. Uma 1ª remessa, de 2,5 toneladas, foi entregue com discrição em Havana há 2 semanas. Ao mesmo tempo, preparava-se um 2º envio, maior: 80 toneladas de remédios e mais de 20.000 toneladas de alimentos.
A avaliação do governo brasileiro é a de que Cuba é um caso à parte. Integrantes dizem que a cooperação humanitária não se mistura com geopolítica. O argumento, porém, em ano eleitoral no Brasil e com Washington de olho no processo, não tende a ser lido com a mesma frieza. Nesta 3ª feira (18.mar), Donald Trump (Partido Republicano) ameaçou tomar a ilha.
A operação é coordenada pela ABC (Agência Brasileira de Cooperação), vinculada ao Itamaraty. O órgão atua em países como Ucrânia, Paraguai, Uruguai e Bolívia. O Itamaraty não emite notas sobre essas doações. A ABC publica informações em seu site à medida que as operações se concretizam. Sobre Cuba, informou a doação de medicamentos em janeiro, mas não detalhou todo o escopo.
Colapso em Cuba
Cuba enfrenta sua pior crise humanitária em décadas. O colapso se aprofundou depois da captura de Nicolás Maduro e da posse de uma administração alinhada aos EUA na Venezuela. Isso interrompeu o fornecimento de petróleo venezuelano à ilha.
O resultado é uma combinação de apagões prolongados, falta de combustível, colapso parcial do sistema de saúde e cancelamento de voos internacionais por falta de querosene de aviação. A escassez de diesel compromete até o transporte marítimo, responsável pela chegada de produtos essenciais.
Donald Trump (Partido Republicano) ameaçou tarifar países que forneçam combustível a Cuba. Depois disso, México e Rússia também reduziram remessas.
A China reagiu com o envio de 60 mil toneladas de arroz e US$ 80 milhões em ajuda emergencial em janeiro. O México enviou mais de 800 toneladas de suprimentos. O Brasil observava o movimento e agora entra em campo.
Cuba, ao mesmo tempo, tenta se reposicionar diante do governo Trump. O presidente Miguel Díaz-Canel (Partido Comunista de Cuba, esquerda) confirmou, na última semana, que o país mantém conversas com os Estados Unidos.
O gesto surpreendeu. Para o governo brasileiro, a divulgação sugere que as conversas chegaram a algum nível de avanço ou que Cuba fez um cálculo estratégico deliberado.
O simbolismo pesa. Cuba é, para o governo Trump, um caso politicamente mais sensível do que a Venezuela, não só pela proximidade geográfica com a Flórida. É um reduto decisivo para o Partido Republicano e tem representação direta do Estado na cúpula do governo norte-americano: Marco Rubio, secretário de Estado. Qualquer sinal de distensão com Havana tem custo interno imediato para Trump.
Ainda assim, o governo brasileiro viu a movimentação com certo alívio. A situação humanitária na ilha se agravou rapidamente, e a abertura de um canal, mesmo que discreta, pode reduzir a pressão por intervenções na América Latina.
Lula tem uma conta a ajustar nesse tabuleiro. O governo já foi alvo de críticas domésticas por ajudar Cuba —a narrativa de “doação ideológica” reaparece sempre que o tema volta à pauta. Segundo o Itamaraty, o Brasil doa para dezenas de países, sem distinção de alinhamento político.
Mas o timing complica. Brasília está em meio a uma negociação delicada com Washington —sobre crime organizado, tarifas e uma eventual visita de Lula a Trump, ainda sem data. Qualquer movimento em direção a Cuba pode ser interpretado, em setores do Departamento de Estado, como sinal de alinhamento com o eixo que os EUA tentam pressionar.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (dir.) em encontro com seu homólogo cubano, Miguel Díaz-Canel (esq.), em Paris
REMESSAS A CUBA
A 1ª remessa incluiu antibióticos, antiparasitários, vitaminas e medicamentos para combate à tuberculose. Os itens saíram de estoques já existentes no Ministério da Saúde. Não houve compra nem transferência de dinheiro. Segundo o governo brasileiro, nada compromete o atendimento à população.
O 2o envio está em preparação, mas sem data definida. Os arranjos logísticos dependem também do lado cubano, responsável pelo transporte. Uma versão chegou a circular de que o embarque ocorreria neste sábado (21.mar). ABC (Agência Brasileira de Cooperação) que isso não procede.
O pacote previsto para a 2ª remessa:
- 80 toneladas de medicamentos — antifúngicos e remédios para arboviroses
- 20 mil toneladas de arroz com casca
- 200 toneladas de arroz polido
- 150 toneladas de feijão preto
- 500 toneladas de leite em pó
Em paralelo, o Brasil fez uma doação de medicamentos à Bolívia no início de março, igualmente sem divulgação oficial.
O envio incluiu 40 mil doses de antimoniato de meglumina (leishmaniose), 20.160 comprimidos de benznidazol 12,5mg (doença de Chagas) e 5 mil comprimidos de rifampicina 300mg (tuberculose).
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