O The New York Times publicou, nesta 6ª feira (20.mar.2026), um artigo que afirma que o Brasil tem resistido à pressão dos Estados Unidos para firmar uma parceria na exploração de minerais críticos, em uma disputa estratégica que também envolve a China.
Segundo o jornal, o governo norte-americano tem pressionado o Brasil a fechar um acordo bilateral para produzir milhões de toneladas de minerais essenciais à economia e à defesa. A proposta foi enviada em fevereiro, mas ainda não recebeu resposta formal do governo brasileiro.
Os EUA também organizaram, nesta semana, um fórum em São Paulo para aproximar autoridades e empresas de mineração dos 2 países. A iniciativa busca destravar investimentos de bilhões de dólares em ao menos 50 projetos no Brasil. Apesar do convite, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não participou do evento.
Nos bastidores, integrantes do governo brasileiro avaliam a iniciativa como uma tentativa “pesada” de influenciar a política nacional para minerais estratégicos. A resistência está ligada, principalmente, ao interesse do país em manter o controle sobre seus recursos e negociar com múltiplos parceiros, sem exclusividade.
A reportagem afirma que o impasse se dá apesar de um objetivo comum entre os países: reduzir a dependência da China, que domina a extração e, sobretudo, o processamento global de minerais como terras raras, lítio e cobalto.
O Brasil ocupa posição relevante nessa cadeia. O país concentra de 19% a 23% das reservas mundiais de terras raras, além de deter praticamente todo o nióbio do planeta e possuir grandes reservas de lítio e cobalto, insumos essenciais para tecnologias como carros elétricos, turbinas eólicas e sistemas de defesa.
Ainda assim, o governo Lula defende que a exploração desses recursos esteja vinculada ao desenvolvimento industrial interno. A estratégia é estruturar uma cadeia produtiva completa no país, da extração ao processamento e à fabricação de produtos, como ímãs, evitando a simples exportação de matéria-prima. Já os Estados Unidos, embora dispostos a investir, resistem a exigências que obriguem o processamento integral no Brasil.
Em troca dos aportes, os EUA buscam prioridade na compra dos minerais, especialmente em relação à China. Diante das dificuldades nas negociações com o governo federal, o país passou a buscar alternativas.
Um memorando de entendimento foi firmado diretamente com o governo de Goiás, região rica em minerais críticos. Pela legislação brasileira, porém, os recursos minerais pertencem à União, e a exploração depende de autorização federal.
O cenário é agravado por tensões diplomáticas recentes. Um enviado norte-americano teve o visto revogado depois de manifestar intenção de visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na prisão. Além disso, negociações anteriores foram afetadas por tarifas impostas durante o governo de Donald Trump.
Apesar do impasse, há movimentações no setor. Uma mina brasileira, operada pela Serra Verde e com apoio de investidores norte-americanos, encerrou antecipadamente contratos com processadores chineses, abrindo espaço para empresas ocidentais. O projeto também recebeu recentemente um aporte adicional de US$ 565 milhões de uma agência de desenvolvimento dos EUA.
A expectativa era que Lula discutisse o tema diretamente com Trump em visita à Casa Branca neste mês, mas o encontro foi adiado em razão de tensões internacionais, incluindo a guerra envolvendo o Irã. Especialistas avaliam que um acordo poderia beneficiar ambos os lados: os EUA reduziriam a dependência da China, enquanto o Brasil ampliaria sua capacidade produtiva com acesso a capital e tecnologia.
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