Há algo profundamente errado em uma sociedade que ainda precisa reafirmar, em pleno século XXI, que mulheres merecem respeito, dignidade e o direito básico de existir sem medo. A violência contra a mulher — seja ela física, psicológica, simbólica ou institucional — não é um desvio isolado: é um reflexo direto de uma cultura machista, misógina e permissiva com homens que, na linguagem mais crua e verdadeira, se comportam como escrotos.
O feminicídio é a expressão mais brutal dessa lógica. Não se trata apenas de crime — trata-se de um projeto de poder que tenta controlar, silenciar e eliminar mulheres. Cada caso não é uma exceção, mas um sintoma de uma doença social que normaliza o desrespeito e relativiza a violência.
Esse problema não nasce apenas nas ruas ou dentro de casa. Ele também é alimentado no topo da política e das instituições. Quando figuras públicas reproduzem discursos agressivos, desumanizam mulheres ou fazem pouco caso de denúncias, legitimam comportamentos que se espalham pela sociedade.
O ex-presidente Jair Bolsonaro construiu, ao longo de sua trajetória, um histórico de declarações ofensivas e desrespeitosas contra mulheres. O episódio envolvendo a deputada Maria do Rosário — quando afirmou que ela “não merecia ser estuprada” — não foi um deslize, mas a síntese de uma postura reiterada. Da mesma forma, ataques a mulheres jornalistas reforçaram um ambiente de hostilidade e intimidação, sobretudo contra aquelas que ousam questionar o poder.
Mas o problema não é monopólio de um espectro político. A recente denúncia envolvendo o ex-ministro Silvio Almeida, acusado de importunação sexual contra a ministra Anielle Franco, escancara uma realidade incômoda: o machismo atravessa ideologias. Ele não escolhe partido. Ele se manifesta onde há poder mal exercido e ausência de limites éticos.
É justamente por isso que o combate à violência contra a mulher não pode ser seletivo nem relativizado. Não há “lado certo” quando se trata de abuso. Há, sim, o lado da dignidade humana — e todo aquele que o viola deve ser responsabilizado, independentemente de sua posição, influência ou discurso público.
Felizmente, a história também é marcada por mulheres que resistiram e seguem resistindo. Maria da Penha transformou sua dor em uma das legislações mais importantes do país. Djamila Ribeiro tem sido uma voz potente na denúncia do racismo e do sexismo estruturais. No cenário internacional, Malala Yousafzai simboliza a coragem diante da opressão, enquanto Simone de Beauvoir já nos alertava, décadas atrás, que “não se nasce mulher, torna-se”.
Essas vozes nos lembram que a luta é coletiva, contínua e urgente.
Não basta repudiar o feminicídio quando ele vira manchete. É preciso enfrentar o machismo cotidiano: na piada, no comentário, na postura, na política. É necessário educar meninos para que não se tornem agressores e responsabilizar homens adultos por suas escolhas e atitudes.
Chega de normalizar o inaceitável. Chega de tolerar o intolerável.
Uma sociedade que protege agressores e silencia vítimas não é civilizada — é cúmplice. E cumplicidade, neste caso, também mata.
Inverno de 2026
O post Chega de violência: o Brasil não pode mais tolerar homens “escrotos” no poder e na sociedade apareceu primeiro em A Gazeta do Amapá.
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