Em entrevista ao Poder360, o embaixador do Japão no Brasil, Yasushi Noguchi, declarou que a relação entre os 2 países vive uma fase de expansão econômica impulsionada pela busca japonesa por “segurança econômica” e por maior resiliência nas cadeias de suprimentos. Segundo ele, o Brasil ganhou relevância estratégica nesse cenário por combinar “estabilidade democrática” e “abundância” de recursos naturais.
O movimento se dá no contexto de reorganização das cadeias globais, pressionadas por tensões recentes –como a alta do preço do petróleo após o fechamento do estreito de Ormuz, a disputa entre Estados Unidos e China pelo controle de minerais críticos e a maior incerteza na política comercial norte-americana– que têm levado países como o Japão a reduzir a dependência de poucos fornecedores em setores estratégicos.
Noguchi destacou avanços em duas frentes principais:
- exploração de minerais críticos do Brasil pelo Japão;
- processo de abertura do mercado japonês à carne bovina brasileira.
Assista à íntegra da entrevista (20min):
Terras raras e transição energética
A cadeia global de terras raras é altamente concentrada, com a China dominando grande parte da produção e, principalmente, do processamento desses minerais. Eles são considerados estratégicos por serem essenciais à fabricação de produtos tecnológicos como chips, baterias, veículos elétricos e equipamentos de defesa.
Nesse contexto, para o governo japonês, o Brasil é um parceiro relevante na diversificação do fornecimento de minerais críticos, como terras raras e lítio.
Em 12 de março de 2026, a organização japonesa JOGMEC (Japan Organization for Metals and Energy Security) assinou um memorando de entendimento com o governo de Goiás para a cooperação na exploração desses recursos.
A iniciativa integra a estratégia do Japão de diversificar o acesso a minerais críticos por meio de parcerias diretas com países produtores. A agência estatal japonesa voltada à segurança de recursos naturais e energia tem papel central nesse esforço. A iniciativa contempla, além da exploração, a transferência de tecnologia e a formação de mão de obra especializada.
Segundo o embaixador, o interesse japonês está ligado a 3 fatores:
- uso em semicondutores, baterias e turbinas eólicas;
- metas de neutralidade de carbono até 2050;
- necessidade de garantir fornecimento estável no longo prazo.
Carne bovina
O Japão realiza neste mês de março uma auditoria técnica para avaliar o sistema sanitário brasileiro, etapa necessária para uma eventual abertura do mercado à carne bovina do país –demanda negociada há anos entre os governos.
A missão de inspeção passa pelos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Os resultados serão analisados pelo Comitê de Saúde Animal japonês antes de uma decisão final, sem prazo definido.
O Japão é um dos maiores importadores globais de carne bovina e mantém atualmente fornecedores consolidados, como os EUA e a Austrália. A eventual entrada do Brasil ampliaria o acesso japonês a fornecedores e reduziria riscos de concentração no abastecimento.
Para o Brasil, a abertura representaria o acesso a um mercado de alto valor agregado, com potencial de elevar exportações e diversificar destinos para a proteína bovina. Noguchi afirmou que a iniciativa “dá continuidade a décadas de cooperação bilateral”.
Mercosul e biocombustíveis
O embaixador também mencionou o interesse japonês em aprofundar as relações com o Mercosul, com foco na ampliação de investimentos e comércio, em um momento em que o bloco busca avançar em acordos externos e atrair parceiros.
Outro eixo é a cooperação em energia. O Japão avalia a combinação do etanol brasileiro com sua tecnologia de motores híbridos flex como uma alternativa para reduzir emissões, em linha com suas metas de descarbonização. A iniciativa ganha relevância em um cenário de maior volatilidade no mercado de petróleo, com riscos a rotas estratégicas como o estreito de Ormuz, o que tem levado países a buscar alternativas para reduzir a dependência de combustíveis fósseis.
Segundo Noguchi, o modelo pode ser levado conjuntamente a outros mercados, unindo a capacidade produtiva brasileira à tecnologia japonesa. A iniciativa também pode ampliar a inserção internacional do etanol como solução energética e abrir novas frentes de exportação para o Brasil.
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