O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, disse, nesta 4ª feira (8.abr.2026), que aguarda decisão do governo do Distrito Federal e dos demais acionistas do BRB (Banco de Brasília) para solucionar os problemas contábeis depois do caso Master. Afirmou que é necessário um aporte para ampliar o patrimônio da instituição financeira. As declarações foram feitas durante a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Crime Organizado.
Galípolo afirmou que aguarda, do BRB, uma provisão –reserva financeira exigida para cobrir perdas esperadas decorrentes de operações fraudulentas com carteiras de crédito do Banco Master.
“O que se aguarda […] é uma solução por parte dos acionistas para o tema do balanço. […] É um tema de patrimônio e balanço e não de liquidez”, disse Galípolo. “Melhorar o patrimônio depende efetivamente de um aporte por parte dos acionistas, que é isso que a gente aguarda”, completou.
O Banco Central descobriu os créditos podres do Master durante a negociação de compra em 2025 pelo BRB (Banco de Brasília), estatal do Distrito Federal. A instituição agora está em situação financeira alarmante depois de comprar R$ 12,2 bilhões em carteiras.
A estatal entregou, em fevereiro deste ano, um plano de capital com medida para recompor o balanço e reforçar a liquidez, mas corre risco de ser liquidada pelo Banco Central, assim como o Banco Master. O BRB não divulgou o balanço financeiro do ano passado, o que elevou as incertezas em relação ao futuro da instituição.
Galípolo declarou que o Banco Central não pode interferir no caso do BRB para dar “opinião” sobre quais ativos deveriam ser usados para compensar os ativos do Master.
“A partir da identificação dos indícios de fraudes [do Master], existe a proposta de desfazimento da fraude, do negócio. Esse desfazimento envolve o BRB escolher outros ativos, num valor, no ponto de vista de balanço, um pouco superior ao valor que existia no balanço do Master”, disse.
Como os ativos propostos pelo BRB para desfazer o negócio não podem ser usados, pela análise do BC, o banco estatal terá que fazer uma provisão adicional, reconhecida em balanço financeiro. O banco não publicou os dados contábeis de 2025.
O presidente do BC foi convidado pela CPI para explicar a atuação do Banco Central no caso Master, o maior escândalo bancário da história que pode culminar em um possível acordo de delação premiada que tem reflexos nos Três Poderes. O relator da CPI é o senador Alessandro Vieira (MDB-SE).
O fundador do Master, Daniel Vorcaro, está preso pela 2ª vez desde 4 de março. É investigado por corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos.
Galípolo teve reunião fora da agenda pública no Palácio do Planalto em 4 de dezembro de 2024, com Vorcaro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e outras autoridades. Na época, ele não informou sobre o encontro ao então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.
O presidente do Banco Central comentou sobre as investigações que resultaram em um rombo de quase R$ 52 bilhões no FGC (Fundo Garantidor de Crédito). Ele é ouvido na condição de testemunha.
FRAUDES
O Banco Central teve “certeza” da inexistência de lastro em carteira de crédito em 27 de junho de 2025. As autoridades competentes –Ministério Público Federal e Polícia Federal– foram comunicadas em julho. A 1ª fase da operação Compliance Zero foi realizada em novembro.
Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, do Banco Central, são suspeitos de facilitar interesses do Master na autoridade monetária. A CGU (Controladoria Geral da União) também instaurou processos administrativos disciplinares. Paulo Sérgio Souza foi diretor de Fiscalização do Banco Central de 2017 a 2023, durante os governos Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL), sendo indicado pelos 2 ex-presidentes para o cargo.
Paulo Souza é alvo de investigações da PF por fornecer informações privilegiadas para Daniel Vorcaro. Belline e Souza atuavam no Desup (Departamento de Supervisão Bancária) e foram afastados dos cargos em 4 de março deste ano.
As investigações assumem duas frentes:
- uma da CGU (Controladoria Geral da União), com possíveis sanções administrativas;
- uma da Polícia Federal, do ponto de vista criminal.
Galípolo já disse que a autoridade monetária tem um sentimento de “consternação” depois do caso Master. Na época, defendeu que a ética é um valor “muito caro” aos funcionários públicos da instituição e pediu “ajuda” para a aprovação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 65 de 2023 no Congresso, que amplia a autonomia financeira do Banco Central em relação ao governo federal.
De acordo com Galípolo, o diretor de Fiscalização do BC, Ailton Aquino, identificou, em janeiro de 2025, que o Master estava fazendo venda de novas carteiras por causa dos problemas de liquidez, mesmo com as dificuldades de novas captações.
Um grupo de análise começou os trabalhos em fevereiro e identificou, em março, que as carteiras não tinham lastros. Os documentos obtidos eram, segundo Galípolo, insuficientes para constatar uma fraude, mas o BC procurou respostas mais satisfatórias sobre a origem dos créditos.
O Banco Central teve dificuldade para encontrar evidências e avançou nas investigações durante o processo de análise de compra do Master pelo BRB.
O BC defende que o rito legal do processo foi respeitado para que não houvesse questionamentos posteriores. O BC deu “chances” para que fosse esclarecido, e o tempo de apuração foi destinado para fundamentar o processo e avisos às autoridades competentes.
CASO MASTER
O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025. O fundador da instituição financeira, Daniel Vorcaro, firmou, em 19 de março de 2026, um acordo de confidencialidade com a PF (Polícia Federal) e com a PGR (Procuradoria Geral da República) que possibilita a delação premiada. O documento expõe riscos de várias autoridades públicas de Brasília. Esse acordo foi assinado quase 12 meses depois do anúncio de compra pelo BRB (Banco de Brasília), que tenta se recuperar financeiramente após a operação.
O Master foi responsável pelo rombo recorde no FGC (Fundo Garantidor de Créditos), de quase R$ 52 bilhões, mesmo tendo somente 0,57% do ativo total e 0,55% das captações do sistema financeiro nacional. Também provocou prejuízo de quase R$ 2 bilhões para Estados e municípios nos fundos de Previdência.
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