O Brasil vive um paradoxo no setor elétrico: ao mesmo tempo em que ampliou rapidamente a produção de energia de fontes renováveis, enfrenta dificuldades para escoar essa eletricidade até os centros de consumo. O resultado é um cenário de “energia sobrando” em algumas regiões, enquanto o país deixa de aproveitar plenamente sua capacidade.
Segundo o presidente da Hitachi Energy no Brasil, Glauco Freitas, a expansão da matriz energética nos últimos anos foi expressiva e concentrada em fontes como solar e eólica. De 2020 a 2024, a capacidade de geração deu um salto de cerca de 175 gigawatts para mais de 230 gigawatts.
“Demoramos mais de um século para atingir determinado nível de geração e, em poucos anos, ampliamos isso de forma acelerada, puxada pelas renováveis”, afirmou.
A entrevista foi concedida durante a Latam Energy Week, realizada no Rio de Janeiro, que reuniu autoridades, executivos e especialistas do setor para discutir os desafios da transição energética e os caminhos para expansão da infraestrutura elétrica no país.
Apesar do crescimento, o consumo não acompanhou o mesmo ritmo. Segundo Freitas, hoje, o país consome, em média, cerca de 110 gigawatts, o que cria uma diferença relevante entre o que pode ser gerado e o que é efetivamente utilizado. Isso faz com que parte dessa energia excedente seja desperdiçada ou tenha sua produção interrompida.
Além da demanda limitada, o principal problema está na infraestrutura. A maior parte da geração renovável se concentra nas regiões Norte e Nordeste, enquanto os grandes centros consumidores estão no Sudeste e no Sul. Sem uma rede de transmissão robusta o suficiente, o sistema não consegue levar toda a energia produzida até onde ela é necessária.
“A transmissão não acompanhou o crescimento da geração. Hoje, o sistema é interligado, mas não tem a robustez necessária para transportar toda essa energia”, disse o executivo.
Para Freitas, o país pode perder oportunidades estratégicas. A abundância de energia renovável e de baixo custo coloca o Brasil em posição privilegiada para atrair indústrias intensivas em eletricidade, como data centers, mobilidade elétrica e setores que buscam descarbonização, como mineração e siderurgia.
Mas a dificuldade de garantir fornecimento constante e infraestrutura adequada pode afastar esses investimentos. “Há risco de perdermos essas indústrias para outros países que conseguem oferecer energia com mais segurança e menos gargalos”, disse.
Entre as soluções apontadas pelo setor estão a ampliação de linhas de transmissão de longa distância, o uso de tecnologias para aumentar a eficiência da rede e investimentos em sistemas de armazenamento, como baterias, que permitem guardar energia gerada fora dos horários de pico de consumo.
Para especialistas e executivos do setor, o avanço nessas frentes é decisivo não apenas para evitar desperdícios, mas também para transformar a vantagem comparativa do Brasil em crescimento econômico.
“O país já fez a transição na geração, com uma matriz majoritariamente renovável. O desafio agora é conseguir usar toda essa energia”, disse Freitas.
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