Nos últimos anos, o uso extensivo de antibióticos para controlar doenças resultou nas superbactérias: microrganismos resistentes a medicamentos que tornam infecções comuns mais difíceis de tratar e assombram profissionais da área da saúde ou pacientes que precisam passar por intervenções cirúrgicas.
A ciência segue em busca de uma resposta ao problema das superbactérias. A equipe da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná), do campus Toledo, tem trabalhado nesse enfrentamento, com o desenvolvimento de um hidrogel com alto poder antimicrobiano.
Como o produto ainda não passou por uma regulamentação, não é possível aplicá-lo em pessoas, mas a pesquisa em laboratório mostrou grande potencial para ser usado como substituto do álcool em gel e como agente de limpeza para esterilização de ambientes hospitalares. Os próximos passos incluem escalonar o material. Estamos em busca de empresas parceiras para dar seguimento às pesquisas.
Uma das vantagens do nosso gel está no fato de se apresentar como um agente germicida mais eficaz quando aplicado na pele, como mostraram os nossos experimentos. Outros álcoois gel, apesar de terem agentes antimicrobianos, não apresentam atividade residual persistente e podem permitir o crescimento lento de bactérias após seu uso.
O desenvolvimento do hidrogel
O desenvolvimento de um hidrogel composto de vidro de borofosfato (uma espécie de ‘vidro bioativo’) e carbopol (um agente gelificante utilizado na formulação do álcool em gel e que usamos como desinfetantes para as mãos) foi iniciado em 2022.
O borofosfato é chamado de vidro porque, estruturalmente, é um material vítreo, ou seja, amorfo, não cristalino. Mas ele é diferente do vidro de janela, que é feito principalmente de areia de sílica.
A composição química do vidro de borofosfato parte do fosfato de potássio. Ele é solúvel (ou seja, pode ser diluído na água) e composto por tipos de reagentes específicos. Usamos esse material para fazer uma síntese que chamamos de fusão e resfriamento e, assim, formar esse material vítreo.
O termo vidro bioativo não está ligado à composição química, mas ao comportamento do material quando entra em contato com um sistema biológico. Isso porque ele interage ativamente com o meio fisiológico.
Um hidrogel feito de carbopol foi criado e incorporado ao vidro de borofosfato já em forma aquosa (depois de diluído). O vidro é o princípio ativo, responsável por matar as bactérias.
Além do alto poder antimicrobiano e da ausência de metais como a prata, outra grande vantagem do produto desenvolvido e patenteado na Universidade Estadual do Oeste do Paraná, campus Toledo (Unioeste) é que o hidrogel não é inflamável como o álcool gel, que tem etanol em sua composição.
Em relação ao uso de agentes antibacterianos residuais, como a prata ou o triclosan, várias alternativas têm sido estudadas por cientistas a partir da nanotecnologia, para evitar o surgimento de bactérias mais resistentes a longo prazo.
Os estudos para o hidrogel levaram cerca de um ano, entre 2022 e 2023, e resultaram no depósito de patente no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Esse prazo é considerado curto quando o assunto é produção científica.
Em 2023, pesquisadores assinaram e publicaram um artigo na International Journal of Pharmaceutics, a terceira revista científica mais citada na área, apresentando as diferenças entre o hidrogel e o álcool em gel. O trabalho foi desenvolvido por alunos do mestrado Iago Assis (PPGBio/UTFPR) e Jaqueline Saracini (Unioeste), orientados pelos professores Ricardo Schneider e Cleverson Busso.
Este texto foi publicado originalmente pela The Conversation às 10h51 de 7 de abril de 2026 e adaptado para publicação pelo Poder360.
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