O Paraguai tem atraído um número crescente de empresas brasileiras, especialmente dos setores têxtil e de bens de consumo, beneficiadas por incentivos fiscais, energia mais barata e menor custo operacional. O movimento está associado à Lei de Maquila e às atualizações recentes na sua regulamentação. Eis a íntegra do texto sancionado em abril de 2026 (PDF – 18 MB, em espanhol).
O movimento se dá em meio à busca por maior competitividade fora do Brasil devido aos custos de produção mais elevados no mercado interno e à carga tributária mais complexa. Nesse contexto, mudanças recentes na legislação paraguaia –voltadas à atração de investimento estrangeiro– têm reforçado esse fluxo, ao oferecer um ambiente mais previsível e com menor custo operacional para empresas industriais e de serviços.
Empresas de diferentes setores já iniciaram ou ampliaram operações no país.
A catarinense Döhler, fabricante de produtos de cama, mesa e banho, informou em comunicado ao mercado a aquisição de uma estrutura societária no Paraguai e de um terreno em Coronel Oviedo, onde pretende instalar sua 1ª fábrica fora do Brasil. A unidade deve produzir roupas de cama voltadas aos mercados brasileiro e internacional, como parte de uma estratégia de expansão e de diversificação geográfica. Eis a íntegra do comunicado (PDF – 254 kB).
A Lupo também avançou com a implantação de uma fábrica em Ciudad del Este, com investimento de cerca de R$ 30 milhões e capacidade estimada de até 20 milhões de pares de meias por ano. O projeto é um dos mais estruturados entre empresas brasileiras no Paraguai e deve atender tanto o mercado interno quanto exportações. Eis a íntegra do comunicado (PDF – 127 kB).
A JBS, que já tem presença consolidada no Paraguai, ampliou investimentos no país, especialmente no setor de proteína animal, aproveitando custos mais baixos e acesso a mercados externos, conforme 0 mapa de atuação divulgado em relatórios corporativos. Eis a íntegra (PDF – 8 MB).
Os casos variam em grau de maturidade, havendo operações já confirmadas, projetos em fase de implantação e iniciativas ainda em avaliação pelas empresas. Em geral, esses movimentos são comunicados de forma seletiva, seja por meio de informes ao mercado, seja em divulgações institucionais.
Lei de maquila como estratégia
O avanço recente está diretamente ligado ao arcabouço legal do Paraguai. A chamada Lei de Maquila permite que empresas produzam no país com insumos importados e paguem apenas 1% de imposto sobre o valor agregado, desde que a produção seja destinada à exportação.
Em entrevista ao Poder360, o advogado paraguaio , CEO da consultoria M360, afirmou que a regulamentação aprovada em 2025 ampliou o regime ao incluir serviços –como tecnologia e call centers—, aumentando o alcance da política de atração de investimentos.
Segundo ele, empresas podem obter ganhos de competitividade de 15% a 20%, além de benefícios como isenção de impostos de importação, facilidade na remessa de lucros e menor carga tributária total.
Eis os principais pontos destacados por Mersan:
- expansão para serviços – a inclusão de serviços amplia o alcance do regime e permite a instalação mais rápida de operações. “Uma empresa de serviços se instala em um tempo muito menor que uma empresa de bens”, afirmou. Segundo ele, o modelo abre espaço para áreas como contabilidade, desenvolvimento de software e BPO (terceirização de processos), desde que voltadas ao mercado externo;
- exigência de operação local – o advogado afirmou que o regime exige atividade efetiva no país. “Não dá para colocar uma empresa aqui com um servidor que automatize o processo e faça o serviço ser prestado em outro país”, declarou;
- formalização da economia – em um país com cerca de 65% de informalidade, Mersan disse que o modelo contribui para ampliar o emprego formal. Segundo ele, trabalhadores vinculados à Maquila atuam com registro, salário mínimo e acesso à seguridade social;
- transferência de conhecimento – segundo o advogado, o governo busca atrair investimentos que também promovam qualificação profissional e intercâmbio técnico;
- contexto internacional – Mersan disse que a reorganização das cadeias produtivas depois da pandemia e de conflitos como a guerra na Ucrânia impulsionaram a busca por fornecedores mais próximos. Nesse cenário, o Paraguai atrai empresas brasileiras “como um complemento para otimizar custos e acessar novos mercados”.
Impacto econômico e no setor de serviços
A medida impacta empresas que operam no Paraguai, especialmente no setor de serviços, que passa a ter acesso mais claro aos benefícios do regime.
De acordo com o governo, esse segmento já responde por cerca de 4.000 empregos no país e conta com a presença de empresas internacionais, consolidando o Paraguai como destino para operações com componente tecnológico. Eis a íntegra do comunicado oficial do governo paraguaio (PDF – 504 kB).
A expectativa é de que a regulamentação contribua para:
- aumento das exportações de bens e serviços com maior valor agregado;
- diversificação de mercados;
- fortalecimento da balança comercial;
- maior competitividade.
O avanço do Paraguai como polo industrial regional indica uma mudança gradual na dinâmica produtiva do Mercosul. A combinação de incentivos fiscais, menor custo e proximidade geográfica tem levado empresas brasileiras a adotar estratégias de produção transnacional –mantendo mercado e marca no Brasil, mas deslocando parte da manufatura para países vizinhos.
Estratégia de Estado e comunicação empresarial
Diferentemente do Brasil, onde movimentos industriais nem sempre são amplamente divulgados, o Paraguai trata a atração de empresas como política econômica central.
O governo e associações locais promovem o país como destino industrial, destacando fatores como estabilidade macroeconômica, custo de energia reduzido e regime tributário simplificado.
No caso das empresas brasileiras, a comunicação sobre a instalação de operações no exterior costuma ocorrer de forma pontual, muitas vezes por meio de comunicados ao mercado ou respostas à imprensa. Em outros casos, esses movimentos aparecem de forma indireta em relatórios financeiros ou anúncios institucionais, sem necessariamente ganhar destaque público.
O que são empresas maquiladoras
Empresas maquiladoras são companhias que produzem bens ou prestam serviços no país voltados à exportação, com incentivos fiscais. Nesse modelo, empresas estrangeiras enviam insumos, tecnologia ou contratam serviços no Paraguai, onde se dá parte do processo produtivo ou da operação, e o resultado é destinado ao mercado externo.
O regime é usado para atrair investimentos e criar empregos, ao oferecer custos mais baixos às empresas. No Paraguai, as maquiladoras pagam uma alíquota reduzida sobre o valor agregado, além de contar com benefícios como isenção de tributos na importação de insumos.
Com a regulamentação recente, o modelo passa a incluir a prestação de serviços, ampliando o alcance do regime para áreas como tecnologia, atendimento remoto e processos administrativos.
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