O poema Cantiga Para Não Morrer, de Ferreira Gullar, é de uma sensibilidade poética indizível ao falar da partida do ser amado sem esperança de reencontro. E essa declaração de amor, de um amor atemporal levado pelos fantasmas das circunstâncias, na voz do ator Fernando Nero (da supersérie Onde Nascem os Fortes), para na sequência transformar-se em canção (Me Leve), na voz do Fagner, é um louvor aos sentimentos que habitam os corações humanos. São os sentimentos de bem-querença, CREIO, que nos tornam humanos, embora, no caso, revele uma dor aguda a reverberar em dor crônica.
Encantei-me com esse texto transformado em bálsamo nas vozes dos dois artistas citados. Diria que foi um complô de talentos – o escritor, o ator e o cantor – revelando que a arte é o divino no humano. Estabelece conexões improváveis, transporta para além das formas visíveis e reverbera no impensável, no indescritível, desanuviando momentos de tantos cataclismas.
É ELA, A ARTE, que comunica com graça sem perder a sobriedade em uma sociedade onde impera a obsoleta Lei do Mais Forte …
Mas não quero entrar nisso. Os dias já estão cheios de tantas notícias. Quero voar com o poeta e pedir que “me leve” para o “grande e divino monte Hélicon”, onde as musas desvelam-se em dons criando condições para visualizarmos, ou melhor, compreendermos o belo e sublime.
Me leve, amável musa, para dançar de pés descalços, lançar lenços coloridos em redemoinhos de ar e sorrisos. Jogar diamantes de palavras esculpidas no canto sibilante de cachoeiras em rochas cristalinas.
Me leve, inspiração amiga, para lançar dados nas manhãs com névoas e acordar o sol por entre nuvens despejando o azul do céu sobre os sonhos e as vilas, os vilarejos e centros do fim do mundo, nesta caminhada sem princípio nem meio ou fim, mas que trafega leve saltando com charme sobre os espinhos, respirando fundo e abrindo o peito com alegria.
Alegria, ora suave, ora ruidosa, desenhando com arte arcos contíguos de abraços fraternos e saudades eternas. Me leve… Me leve ao encontro da bem-querença que se abriga, ou se esconde, serena dentro de mim.
Um raio dourado no azul sem fim, somos viajantes a descobrir encantos e encantar-se tanto com o olhar de uma criança no meio da praça que nunca vi ou na rua deserta de amor e afeto. Estremeci, ouvindo o poeta em sua súplica cósmica por um milagre terreno: Me leve.
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