As doações para instituições de caridade na China caíram pelo 4º ano consecutivo em 2024, pressionadas por fatores macroeconômicos e por uma grave crise de confiança pública após uma série de escândalos de fraude de grande repercussão.
O declínio evidencia os crescentes desafios para o setor filantrópico do país, de acordo com o recém-lançado “Livro Azul da Caridade: Relatório de Desenvolvimento da Caridade na China” (2025).
O total de doações sociais de empresas e indivíduos caiu para 126 bilhões de yuans (US$ 18,4 bilhões) no ano passado, uma queda de 8,7% em relação a 2023. O valor é quase 18% menor do que o pico do setor, de 153,4 bilhões de yuans, registrado em 2020.
O número de organizações sociais registradas na China também caiu pelo 3º ano consecutivo, recuando 1,1% para aproximadamente 871.800 no final de 2024. Enquanto fundações e grupos sociais apresentaram um leve crescimento, as entidades privadas não empresariais –como agências de assistência social– diminuíram 3,6%, uma queda mais acentuada do que nos anos anteriores.
O relatório, de autoria de Yang Tuan, pesquisadora da Academia Chinesa de Ciências Sociais, e publicado pela Editora Acadêmica de Ciências Sociais, aponta tanto para uma mudança no cenário macroeconômico quanto para uma eliminação gradual de organizações beneficentes com baixo desempenho. Yang e seus coautores observaram que esses números em declínio são indicadores claros de que o setor está sob forte pressão.
“Sujeitas ao duplo impacto da pressão econômica e aos problemas de confiança nas organizações de caridade, a disposição e a escala das doações de empresas e indivíduos estão diminuindo gradualmente”, afirmou o relatório.
O frio do escândalo e da regulamentação
A recessão foi sentida em todo o setor. As contribuições para as 10 principais fundações públicas de arrecadação de fundos registradas no Ministério de Assuntos Civis caíram, em média, 17,5% em 2024. A Fundação Chinesa para o Desenvolvimento Rural, por exemplo, viu sua receita de doações encolher 18%, para 1,13 bilhão de yuans no ano passado. No total, o sistema de fundações registrou um valor estimado de 82 bilhões de yuans em doações, representando uma queda de quase 10%.
As organizações filantrópicas também estão gastando com mais cautela. A proporção geral de gastos com bem-estar público por parte das fundações caiu de forma constante, de um pico de 92% em 2019 para 80% em 2023. Embora ainda em conformidade com os limites legais, o relatório alertou que “o resultado objetivo da redução do fluxo de recursos é que as agências de serviços sociais subsequentes têm mais dificuldade para sobreviver e a oferta de serviços de caridade inevitavelmente diminuirá”.
Além da desaceleração econômica generalizada, o setor sem fins lucrativos da China foi abalado por controvérsias recentes. Desde junho de 2023, houve pelo menos 5 grandes casos de fraude envolvendo fundos de auxílio a doenças graves, cada um ultrapassando 10 milhões de yuans.
O caso de maior repercussão envolveu Ke Shanxiao, da Fundação Chinesa de Auxílio a Crianças. Fontes do setor afirmaram que o escândalo envolvendo Ke representou um duro golpe para a credibilidade pública e desencadeou um “terremoto” regulatório comparável ao infame caso de Guo Meimei, que manchou a imagem da Cruz Vermelha da China há mais de uma década.
Em resposta, Pequim implementou medidas drásticas de repressão. Uma nova Lei de Caridade, revisada em 2024, instituiu uma gestão rigorosa da arrecadação de fundos públicos que restringe diretamente as campanhas de caridade online para doenças graves e intensificando a supervisão das doações internacionais.
Segundo Liang Yanling, membro do comitê do partido na Editora Acadêmica de Ciências Sociais, o governo tem cada vez mais colocado o trabalho filantrópico sob o guarda-chuva da manutenção da segurança nacional e da estabilidade social. Liang observou que a regulamentação da filantropia foi elevada a um nível estratégico nacional, inaugurando uma era de intensa supervisão.
O livro azul caracterizou o ambiente atual como uma necessidade estrutural para erradicar a corrupção e reconstruir a confiança. No entanto, alertou que algumas políticas regulatórias têm sido aplicadas com uma abordagem “tamanho único” e camadas de exigências excessivas, o que, em última análise, sufoca a inovação.
Uma grande disparidade internacional
Embora a previsão seja de que os recursos gerais para o bem-estar público –uma métrica mais ampla que inclui o valor dos serviços voluntários e dos fundos de loteria– cresçam 11,7%, atingindo 523,5 bilhões de yuans em 2024, as doações diretas em dinheiro continuam muito atrás das de outras grandes economias.
As doações filantrópicas da China são insignificantes em comparação com os EUA, que registraram US$ 557,16 bilhões em doações para caridade em 2023, de acordo com a Giving USA Foundation.
O relatório também citou dados internacionais mostrando que a Índia gerou aproximadamente 1,2 trilhão de rúpias (US$ 15 bilhões) em doações privadas em 2023. Enquanto isso, as doações filantrópicas no Japão –impulsionadas por seu programa de incentivo fiscal para doações locais– são estimadas em cerca de 2 trilhões de ienes (US$ 14 bilhões) anualmente, apesar de ter uma fração da população da China.
Este texto foi originalmente publicado pela Caixin Global, em 9 de abril de 2026 e foi adaptado para o padrão do Poder360.
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