O relator da CPI do Crime Organizado, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), afirmou nesta 3ª feira (14.abr.2026) que houve interferência do governo federal no resultado da votação do relatório final da comissão. De última hora, 2 senadores do PT foram incluídos na composição do colegiado. O relatório, que pedia o indiciamento de 3 ministros do STF e do procurador-geral da República, foi rejeitado por 6 votos a 4. Leia a íntegra do documento (PDF – 6 MB).
“O governo escolheu atravessar a rua para proteger ministros”, declarou a jornalistas, em referência à proximidade física entre o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, separados pela Praça dos Três Poderes, em Brasília.
Horas antes da votação da leitura final da CPI do Crime Organizado, partidos alteraram integrantes do colegiado. A mudança na composição reforçou o controle do PT na votação.
O bloco constituído por MDB, PSDB, Podemos e União Brasil promoveu a troca de integrantes e indicou 2 senadores do PT, partido que não faz parte da composição formal do grupo. Pelas regras do Congresso, a escolha dos nomes cabe aos líderes, que têm liberdade para indicar congressistas de outras siglas.
A CPI tem 11 membros titulares. Leia as mudanças:
- Saíram: Sérgio Moro (PL-PR) e Marcos do Val (Avante-ES);
- Entraram: Teresa Leitão (PT-PE) e Beto Faro (PT-PA);
- Trocas: Marcos Rogério (PL-RO) tornou-se titular no lugar de Wellington Fagundes (PL-MT), e Soraya Thronicke (PSB-MS) virou titular no lugar de Jorge Kajuru (PSB-GO).
Segundo Vieira, a troca de integrantes foi decisiva para a rejeição do relatório e foi articulada para garantir maioria contrária ao parecer. O senador afirmou que, sem a alteração na composição, haveria resultado diferente na votação.
O relator disse que cumpriu o objetivo de apresentar um documento técnico com base nas provas reunidas ao longo dos trabalhos da CPI. Para ele, a rejeição não invalida o conteúdo produzido. “Nosso papel foi entregar os fatos. O relatório tem sustentação técnica”, afirmou Vieira, que foi delegado da Polícia Civil de Sergipe antes de se eleger senador.
Vieira também declarou que as evidências levantadas pela comissão devem continuar surgindo, independentemente do desfecho político. Segundo ele, as investigações em andamento e o trabalho da imprensa tendem a manter o caso em evidência. “Os fatos são teimosos e vão continuar aparecendo”, disse.
Ao comentar críticas de ministros do STF ao relatório, o senador afirmou que manifestações são legítimas no ambiente democrático, mas defendeu que integrantes da Corte também estejam sujeitos a questionamentos. Segundo ele, não deve haver “ambiente de invulnerabilidade” no país.
“Eu acho que talvez os ministros devem prestar mais atenção no que disse o novo presidente Lula, porque ali não é lugar para virar milionário, ali não é lugar para ter atuação partidária, não é lugar para ter parceria ou convivência com quem é investigado”, declarou.
Vieira ainda afirmou que falas de ministros podem ser interpretadas como forma de pressão sobre o trabalho do senador, que disse ter sido ameaçado. “Ser questionado faz parte da democracia. Ser ameaçado por isso não é aceitável”, declarou.
O senador disse que a decisão de rejeitar o relatório foi política e reforçou que a composição da CPI foi alterada com esse objetivo. Para ele, o episódio deve ter repercussões futuras no debate institucional entre os Poderes.
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