MANAUS: a capital sustenta o Amazonas entre a força da indústria, a pressão urbana e a nova fronteira da bioeconomia
A capital é o ponto de partida obrigatório para compreender as vocações econômicas dos 62 municípios amazonenses — mas também revela o principal desafio da série: transformar concentração em desenvolvimento regional, inovação produtiva e interiorização de oportunidades.
MANAUS (AMAZONAS) – Maior economia do Amazonas e uma das maiores economias municipais do Brasil, Manaus concentra população, empregos, arrecadação, indústria, serviços, turismo, logística e poder político.
Manaus não é apenas a capital do Amazonas. É o centro decisório, industrial, logístico, financeiro, tecnológico, turístico e administrativo de um estado continental. Ao mesmo tempo, é a cidade que mais expõe as contradições da economia amazônica: abriga um dos polos industriais mais importantes do país, mas depende fortemente de insumos importados; concentra quase quatro quintos do Produto Interno Bruto estadual, mas convive com graves desigualdades urbanas; está assentada sobre uma das maiores biodiversidades do planeta, mas ainda busca transformar ciência, floresta e conhecimento tradicional em cadeias produtivas de escala.
Com população estimada em 2.303.732 habitantes em 2025, área territorial de 11.278,893 km² e PIB per capita de R$ 61.855,15 em 2023, Manaus é uma cidade amazônica de dimensão metropolitana e peso nacional. O IBGE informa que o município tinha 2.063.689 habitantes no Censo 2022, densidade de 181,01 habitantes por km², IDHM de 0,737 e receitas brutas realizadas acima de R$ 11 bilhões em 2024.
A economia manauara é, hoje, o eixo central do Amazonas. Em 2023, a capital elevou sua participação no PIB estadual de 78,18% para 78,90%, enquanto a Região Metropolitana de Manaus, formada por 13 municípios, respondeu por 85,29% de toda a riqueza produzida no estado. Os outros 49 municípios somaram 14,71% do PIB estadual.
Essa concentração explica por que o Projeto Amazonas 62 começa por Manaus, mas não pode se limitar a Manaus. A capital é o motor. O desafio é descobrir como esse motor pode impulsionar também Iranduba, Manacapuru, Itacoatiara, Parintins, Tefé, Tabatinga, Coari, Boca do Acre, Apuí, São Gabriel da Cachoeira e todos os demais municípios que formam a diversidade econômica, cultural e territorial do Amazonas.
Perfil territorial: a metrópole amazônica entre rios, floresta e indústria
Manaus está localizada em posição estratégica, próxima ao encontro das águas dos rios Negro e Solimões, em uma região que combina vocação fluvial, centralidade urbana, patrimônio histórico e conexão com a floresta. A cidade é porta de entrada para turistas, mercadorias, pesquisadores, investidores, trabalhadores, empresários e órgãos públicos que se deslocam para o Amazonas.
Sua condição territorial é singular. Manaus é, simultaneamente, cidade portuária, capital industrial, centro de serviços, polo turístico, núcleo universitário, laboratório de inovação e ponto de articulação entre a Amazônia brasileira e os mercados nacionais e internacionais.
Essa posição, porém, também impõe custos. A distância dos principais centros consumidores do país, a dependência do transporte fluvial e aéreo, a vulnerabilidade às secas severas e a necessidade de infraestrutura urbana compatível com uma metrópole de mais de dois milhões de habitantes tornam Manaus um caso complexo de desenvolvimento regional.
A seca histórica de 2024 mostrou a gravidade desse risco. O Rio Negro atingiu, no Porto de Manaus, o menor nível desde o início das medições em 1902, prejudicando transporte, abastecimento, navegação e cadeias produtivas. A crise afetou todos os 62 municípios amazonenses em algum grau, confirmando que a logística fluvial é uma vantagem estratégica, mas também uma vulnerabilidade climática.

Formação econômica: da borracha à Zona Franca
A história econômica de Manaus pode ser lida em três grandes ciclos: ocupação estratégica, ciclo da borracha e industrialização incentivada.
A origem urbana está ligada ao antigo Lugar da Barra, desenvolvido em torno do Forte de São José do Rio Negro. O povoado tornou-se Vila da Barra, depois Cidade da Barra, em 1848, e finalmente Cidade de Manaus, em 1856. O nome remete ao povo indígena Manaós. A partir de 1870, o ciclo da borracha transformou a cidade em símbolo de riqueza, urbanização e conexão internacional, até a decadência do primeiro ciclo gomífero, por volta de 1913.
O Teatro Amazonas, inaugurado em 31 de dezembro de 1896, permanece como o maior ícone arquitetônico e cultural desse período. Tombado como patrimônio histórico nacional em 1966, o edifício sintetiza a fase em que Manaus projetou-se internacionalmente como cidade cosmopolita no coração da floresta.
O segundo grande salto ocorreu com a Zona Franca de Manaus. Criada originalmente pela Lei nº 3.173, de 1957, e reformulada pelo Decreto-Lei nº 288, de 1967, a ZFM foi concebida como centro industrial, comercial e agropecuário para enfrentar a distância da Amazônia em relação aos mercados consumidores e estimular o desenvolvimento regional. O modelo foi prorrogado até 2073 pela Emenda Constitucional nº 83, de 2014.
A Zona Franca redefiniu Manaus. A cidade deixou de depender apenas da memória da borracha e passou a ocupar posição estratégica na produção nacional de eletroeletrônicos, motocicletas, bens de informática, produtos químicos, componentes plásticos, metalurgia e outros segmentos industriais.
Vocação econômica principal: o Polo Industrial de Manaus
O Polo Industrial de Manaus é a principal vocação econômica da capital e o maior diferencial competitivo do Amazonas. Em 2025, o PIM alcançou faturamento recorde de R$ 227,67 bilhões, crescimento de 11,02% em relação a 2024. Em dólar, o faturamento chegou a US$ 40,90 bilhões. O polo encerrou o ano com média mensal de 131.401 empregos diretos, 553 empresas em operação e 170 novos projetos aprovados.
A composição setorial mostra a força e a diversidade da indústria instalada em Manaus. Em 2025, os bens de informática responderam por 21,17% do faturamento, seguidos por duas rodas, com 19,69%, eletroeletrônico, com 16,86%, químico, com 9,94%, mecânico, com 9,16%, termoplástico, com 8,79%, e metalúrgico, com 8,05%.
Entre os produtos fabricados, destacaram-se motocicletas, motonetas e ciclomotores, com mais de 2,1 milhões de unidades produzidas em 2025; aparelhos de ar-condicionado split, com mais de 6,3 milhões de unidades; relógios, monitores LCD e aparelhos de barbear, entre outros itens de grande escala industrial.
O primeiro trimestre de 2026 confirmou a continuidade desse peso econômico. O PIM faturou R$ 58,26 bilhões entre janeiro e março, crescimento de 2,24% em relação ao mesmo período de 2025. As exportações somaram US$ 214,87 milhões, alta de 48,35%, e a média mensal de empregos diretos ficou em 129.812 postos de trabalho.
O desempenho industrial explica a posição nacional de Manaus. Com PIB municipal de R$ 127,6 bilhões em 2023, a capital amazonense foi apontada como a sexta maior economia municipal do Brasil e a maior entre as regiões Norte, Nordeste e Sul.
Mas o mesmo modelo que sustenta a economia local também revela dependências importantes. Manaus liderou, entre janeiro e agosto de 2025, o ranking brasileiro de importações por município, com US$ 10,93 bilhões movimentados para abastecer principalmente o Polo Industrial. O principal item importado foram circuitos integrados e microconjuntos eletrônicos, com US$ 1,83 bilhão.
Esse dado é central para a investigação econômica da série. Manaus é forte porque industrializa em escala. Mas sua indústria ainda depende de cadeias globais de componentes. A próxima etapa estratégica não é apenas manter incentivos, mas ampliar conteúdo tecnológico local, pesquisa aplicada, fornecedores regionais, engenharia nacional, bioinsumos, design industrial, software embarcado, logística de baixo carbono e maior integração com a economia do interior.
Comércio, serviços e mercado consumidor
Manaus é também o maior mercado consumidor do Amazonas. Sua população, sua renda média, sua rede de serviços públicos e privados, seus centros comerciais, hospitais, universidades, bancos, órgãos estaduais e federais e empresas de comunicação tornam a capital a principal praça econômica do estado.
O setor de serviços acompanha o dinamismo da indústria e da administração pública. Em 2025, o Amazonas gerou 21.075 novos empregos formais, com saldo positivo em todos os grandes grupos econômicos. Manaus respondeu por 18.338 novos postos formais e chegou a um estoque de aproximadamente 519,8 mil empregos formais.
O Sine Manaus registrou em 2025 seu melhor desempenho da série recente, com 7.155 vagas ofertadas, 5.835 colocações formais no mercado de trabalho, 9.190 encaminhamentos e 4.429 trabalhadores cadastrados. Os setores com maior volume de vagas foram serviços, comércio, indústria, construção civil e informação e comunicação.
Esse mercado consumidor sustenta milhares de pequenos negócios, trabalhadores autônomos, microempreendedores, profissionais de transporte, alimentação, manutenção, comunicação, tecnologia, estética, eventos e serviços digitais. Manaus é, portanto, uma economia de base industrial, mas com forte densidade terciária.
Turismo, cultura e economia criativa
Manaus é a principal vitrine turística do Amazonas. O Teatro Amazonas, o Centro Histórico, o Encontro das Águas, os rios Negro e Solimões, os hotéis de selva, a gastronomia regional, o artesanato, a música, os festivais, as experiências ribeirinhas e a conexão com unidades de conservação formam um conjunto de atrativos difícil de replicar em qualquer outra capital brasileira.
De janeiro a outubro de 2025, o Amazonas recebeu 379.662 turistas, crescimento de 14,15%. O fluxo de turistas estrangeiros cresceu 40,55%, chegando a 74.231 visitantes. A receita direta estimada com turismo no período foi de R$ 755 milhões. No Aeroporto Internacional Eduardo Gomes, o movimento de passageiros entre janeiro e novembro de 2025 chegou a 2.895.792, com alta de 9,85%, impulsionado especialmente pelo crescimento dos passageiros internacionais.
Eventos culturais também passaram a funcionar como motores econômicos. O Sou Manaus 2025, realizado no Centro Histórico, movimentou aproximadamente R$ 150 milhões na economia local, com impacto em hotelaria, bares, restaurantes, transporte, comércio, serviços, economia criativa e geração de empregos temporários.
A vocação turística de Manaus, contudo, exige política permanente. Não basta vender a imagem da floresta. É necessário qualificar receptivos, ordenar o Centro Histórico, ampliar segurança turística, melhorar mobilidade, estimular guias locais, fortalecer gastronomia regional, integrar roteiros com municípios próximos e criar produtos turísticos de base comunitária, cultural, científica e ambiental.
Manaus pode ser mais do que porta de entrada. Pode ser capital mundial da experiência amazônica.

Bioeconomia: a nova fronteira estratégica
Se a Zona Franca moldou a Manaus industrial do século XX, a bioeconomia pode definir a Manaus do século XXI. A capital reúne universidades, institutos de pesquisa, empresas, laboratórios, centros tecnológicos, órgãos públicos, startups, comunidades tradicionais, investidores e cadeias produtivas associadas à biodiversidade.
O Centro de Bionegócios da Amazônia, vinculado ao MDIC como organização social desde 2023, tornou-se peça estratégica nesse processo. Entre 2024 e 2025, o CBA captou R$ 17,6 milhões para pesquisa e inovação; em 2025, atendeu 24 empresas, aprovou cinco novos projetos de pesquisa e desenvolvimento e manteve estrutura com 21 laboratórios em modernização, banco de microrganismos com mais de 3 mil espécies e parcerias com instituições como Eldorado, INDT, CESAR, IPT, FGV e INPI.
O CBA atua em análises físico-químicas e microbiológicas, processamento, capacitações, micropropagação, genética e apoio à transformação da biodiversidade em bioprodutos, bioindústria, serviços tecnológicos e negócios sustentáveis. Sua própria apresentação institucional aponta a meta de complementar a matriz econômica historicamente concentrada na Zona Franca.
Outro instrumento relevante é o Programa Prioritário de Bioeconomia, idealizado pela Suframa e coordenado pelo Idesam, que capta recursos obrigatórios de pesquisa e desenvolvimento da Lei de Informática para novos produtos, serviços e negócios ligados à bioeconomia amazônica. O programa informa mais de R$ 200 milhões investidos, 71 projetos finalizados, 30 em execução, participação de cinco estados, 43 empresas investidoras e 81 instituições envolvidas.
O Governo do Amazonas também estruturou o Plano Estadual de Bioeconomia 2025–2030, com foco em pesquisa, desenvolvimento, inovação, negócios escaláveis, bioindustrialização, compras públicas sustentáveis, inclusão de mulheres, jovens, agricultores familiares e comunidades tradicionais, além de cadeias como óleos, polpas, extratos, cosméticos, alimentos processados e biotecnologia.
A investigação central, porém, é saber se Manaus conseguirá transformar potencial em escala produtiva. A cidade tem laboratórios, incentivos e instituições. Mas a bioeconomia exige regularização fundiária, segurança jurídica, acesso ao patrimônio genético com repartição justa de benefícios, logística comunitária, certificações, crédito, design de produtos, marca territorial, exportação, propriedade intelectual e capacidade industrial.
Sem isso, a bioeconomia corre o risco de virar discurso. Com isso, pode se tornar a ponte entre Manaus e o interior.
Agricultura familiar, abastecimento e zona rural
Embora Manaus seja conhecida pela indústria, a capital também possui uma zona rural relevante e participa de cadeias de abastecimento alimentar. A produção local não compete em escala com o Polo Industrial, mas tem papel estratégico na segurança alimentar, na merenda escolar, no fornecimento de hortaliças, frutas, mandioca, pescado, produtos regionais e alimentos de base familiar.
A Região Metropolitana de Manaus concentra parte importante da produção de hortaliças do Amazonas, com destaque para municípios como Careiro da Várzea, Iranduba, Manaus, Manacapuru e Presidente Figueiredo. Entre os produtos prioritários da agricultura estadual aparecem mandioca, milho, feijão, banana, açaí, abacaxi, café, citros, guaraná, cupuaçu, soja, fibras e sistemas agroflorestais.
Em 2025, a Prefeitura de Manaus informou investimentos de R$ 17 milhões no programa Manaus + Agro, com compra direta da produção rural e entregas de equipamentos a associações, incluindo roçadeiras, triciclos e motores rabetas. O objetivo declarado foi reduzir atravessadores e permitir que produtores vendessem diretamente para a merenda escolar e outros canais institucionais.
Essa frente precisa ser observada com atenção pela série. A capital consome muito mais alimentos do que produz. Portanto, a vocação agrícola de Manaus não está na autossuficiência, mas na organização de circuitos curtos de abastecimento, compras públicas, produção periurbana, agroindústria artesanal, feiras, agricultura ribeirinha e integração com os municípios vizinhos.
Manaus pode ajudar a puxar a produção rural do entorno se organizar demanda, logística, inspeção sanitária, processamento mínimo e contratos previsíveis.
Logística: vantagem fluvial, risco climático e necessidade de modernização
Manaus vive da logística. A cidade depende de portos, balsas, contêineres, transporte fluvial, aeroporto, rodovias limitadas, cabotagem, armazenagem, distribuição urbana e conexões internacionais. Tudo que entra e sai do Polo Industrial passa por uma equação logística complexa.
O Aeroporto Internacional Eduardo Gomes tem papel estratégico tanto no fluxo turístico quanto no transporte de cargas e passageiros. O crescimento de passageiros internacionais em 2025 mostra o potencial de Manaus como hub amazônico, mas também reforça a necessidade de ampliar conectividade aérea e integração com rotas turísticas, empresariais e tecnológicas.
No setor portuário, o projeto do novo porto da Manaus Moderna representa uma intervenção de grande impacto. O DNIT informa investimento federal de R$ 916 milhões para uma estrutura de aproximadamente 38 mil m², com píeres, terminais de passageiros e cargas, áreas de fiscalização, estação de tratamento de esgoto, estacionamento com energia solar e capacidade de receber até 4 mil visitantes por dia no terminal de passageiros.
A obra pode reorganizar o abastecimento regional, melhorar o transporte de passageiros, reduzir precariedades históricas da orla central e fortalecer turismo, comércio e integração com o interior. Mas a infraestrutura física precisará ser acompanhada de governança, manutenção, segurança, ordenamento urbano, controle ambiental, fiscalização e integração com mercados, feiras e transporte público.
O desafio logístico da capital é simples de enunciar e difícil de resolver: Manaus precisa continuar sendo competitiva mesmo quando os rios baixam, os custos sobem e as cadeias globais pressionam a indústria local.
Tecnologia, inovação e cidade inteligente
Manaus também busca consolidar uma vocação tecnológica para além da linha de montagem industrial. A criação do Distrito de Inovação do Largo São Vicente, no Centro Histórico, aponta para uma tentativa de conectar patrimônio, startups, universidades, empresas de tecnologia, economia criativa e políticas públicas.
O projeto do Parque Tecnológico do Distrito de Inovação recebeu mais de R$ 14 milhões em investimentos previstos, sendo R$ 10,237 milhões da Finep/FNDCT e cerca de R$ 4 milhões da Prefeitura de Manaus. A proposta inclui restaurar um casarão histórico na Ilha de São Vicente e transformá-lo em ambiente de conexão entre startups, universidades, empresas de tecnologia, centros de pesquisa e economia criativa.
Em 2026, decreto municipal estruturou a governança do Distrito de Inovação, com prioridades em formação tecnológica, saúde, sustentabilidade, planejamento urbano, cultura, economia criativa, ciência, tecnologia, inovação e empreendedorismo. A norma também prevê instrumentos como incubação, aceleração e ambiente regulatório experimental.
Essa é uma agenda decisiva. Manaus precisa disputar talentos, formar programadores, técnicos, engenheiros, designers, pesquisadores e empreendedores. A cidade que monta celulares, televisores, motocicletas e equipamentos eletrônicos precisa também desenvolver software, soluções climáticas, sensores, automação, inteligência artificial, biotecnologia e serviços digitais exportáveis.

Gargalos estruturais: o outro lado da potência econômica
A força econômica de Manaus não elimina seus gargalos. Ao contrário: torna-os mais visíveis.
O primeiro gargalo é a concentração. Quando uma única cidade responde por quase 79% do PIB estadual, o interior fica dependente da capital para mercado consumidor, serviços, decisões políticas, tecnologia, saúde especializada, ensino superior, distribuição de mercadorias e investimentos. A concentração de Manaus é força para o Amazonas, mas também sintoma de desequilíbrio regional.
O segundo gargalo é a dependência industrial de incentivos fiscais e insumos externos. A prorrogação da Zona Franca até 2073 dá horizonte jurídico, mas não resolve sozinha a necessidade de inovação, produtividade, infraestrutura, formação profissional e adensamento de cadeias locais. A própria Suframa reconhece desafios ligados à logística, infraestrutura, capital intelectual, pesquisa e desenvolvimento e ampliação da base industrial.
O terceiro gargalo é urbano. Manaus cresceu rapidamente, com forte pressão sobre habitação, mobilidade, saneamento, drenagem, igarapés, resíduos sólidos e periferias. Dados do portal Água e Saneamento indicam que, em 2022, apenas 22,8% do esgoto gerado no município era coletado e tratado, enquanto mais de 76 milhões de m³ eram lançados na natureza sem tratamento.
A situação aparece também em rankings nacionais. O Instituto Trata Brasil incluiu Manaus entre as capitais presentes no grupo dos 20 piores municípios do país em saneamento no Ranking do Saneamento 2025.
O quarto gargalo é climático. A seca extrema de 2024, com o Rio Negro no menor nível histórico em Manaus, mostrou que a capital precisa tratar adaptação climática como política econômica, não apenas ambiental. Sem navegação segura, dragagem planejada, monitoramento hidrológico, estoques estratégicos, portos adaptáveis e logística multimodal, a indústria, o comércio, a saúde, o abastecimento e a vida cotidiana ficam expostos.
Oportunidades econômicas de Manaus
A vocação econômica de Manaus não se resume ao que já existe. A cidade tem pelo menos oito frentes de expansão estratégica.
1. Adensamento do Polo Industrial.
A capital pode ampliar fornecedores locais, engenharia, manutenção avançada, automação, componentes, embalagens, reciclagem industrial, logística reversa e software embarcado.
2. Bioindústria.
Cosméticos, fitoterápicos, alimentos funcionais, ingredientes naturais, óleos, extratos, fermentados, bioinsumos, biomateriais e soluções ambientais podem criar nova ponte entre floresta, ciência e indústria.
3. Turismo de experiência.
Manaus pode combinar Centro Histórico, Teatro Amazonas, gastronomia, Encontro das Águas, turismo científico, observação da natureza, roteiros indígenas, experiências ribeirinhas e eventos culturais.
4. Economia criativa.
Música, audiovisual, moda amazônica, design, games, artesanato, comunicação, festivais e produção de conteúdo podem gerar renda com identidade regional.
5. Tecnologia e inovação.
O Distrito de Inovação, o CBA, o PPBio, universidades, institutos e empresas do PIM podem formar um ecossistema de inovação amazônica.
6. Logística verde.
Portos modernos, embarcações mais eficientes, energia solar, gestão de cargas, rastreabilidade e adaptação às secas podem reduzir custos e emissões.
7. Abastecimento regional.
A capital pode estruturar compras públicas, centrais de distribuição, inspeção sanitária, agroindústria leve e contratos com produtores da Região Metropolitana e do interior.
8. Educação técnica e profissional.
A formação de mão de obra é condição para manter a indústria, atrair tecnologia e diversificar a economia.
Agenda para investidores e gestores públicos
Manaus oferece uma das combinações mais raras do Brasil: mercado consumidor relevante, base industrial consolidada, incentivos fiscais, biodiversidade, capital humano, instituições de pesquisa, aeroporto internacional, rede portuária, turismo global e posição geopolítica amazônica.
Para investidores, as áreas mais promissoras estão em tecnologia industrial, bioeconomia, logística, turismo, energia, saneamento, economia criativa, capacitação profissional, alimentos regionais, reciclagem, manutenção industrial, construção sustentável e serviços urbanos.
Para gestores públicos, a agenda prioritária deve incluir cinco decisões: proteger a competitividade do Polo Industrial; acelerar saneamento e recuperação de igarapés; preparar a logística para extremos climáticos; integrar Manaus aos municípios vizinhos; e transformar bioeconomia em produção real, com repartição de benefícios e inclusão de comunidades tradicionais.
Para o interior, Manaus precisa deixar de ser apenas centro concentrador e passar a ser plataforma de distribuição de oportunidades. A capital pode comprar mais do interior, processar produtos regionais, exportar marcas amazônicas, apoiar pesquisa aplicada nos municípios e abrir mercado para cadeias como pescado, frutas, mandioca, café, cacau, óleos, madeira manejada, turismo, artesanato e serviços ambientais.
Quadro de indicadores — Manaus
| Indicador | Dado mais recente disponível |
| População estimada | 2.303.732 habitantes em 2025 |
| População no Censo | 2.063.689 habitantes em 2022 |
| Área territorial | 11.278,893 km² em 2025 |
| Densidade demográfica | 181,01 hab/km² em 2022 |
| PIB per capita | R$ 61.855,15 em 2023 |
| Participação no PIB do Amazonas | 78,90% em 2023 |
| Receitas brutas realizadas | R$ 11,09 bilhões em 2024 |
| Despesas brutas empenhadas | R$ 10,73 bilhões em 2024 |
| Escolarização de 6 a 14 anos | 96,55% em 2022 |
| IDHM | 0,737 em 2010 |
| Mortalidade infantil | 15,17 óbitos por mil nascidos vivos em 2023 |
Dados municipais do IBGE e participação econômica informada pela Sedecti com base no PIB municipal de 2023.

Conexão com o Amazonas, o Brasil e o mundo
Manaus é uma cidade amazônica com papel global. Seus produtos industriais dependem de componentes internacionais, abastecem consumidores brasileiros e operam dentro de um regime econômico estratégico para a presença do Brasil na Amazônia. Sua biodiversidade interessa à ciência mundial. Seus rios são parte do equilíbrio climático do planeta. Seu turismo vende uma das imagens mais conhecidas do Brasil no exterior. Sua indústria disputa espaço em cadeias globais de tecnologia.
Ao mesmo tempo, Manaus carrega uma responsabilidade interna: não pode ser ilha de prosperidade cercada por municípios com baixa arrecadação, baixa industrialização, dificuldade logística e pouca diversificação econômica. A capital precisa se conectar mais ao interior, não apenas por estradas e rios, mas por compras públicas, tecnologia, assistência técnica, crédito, turismo integrado, agroindústria, bioeconomia e circulação de conhecimento.
Fechamento
Manaus abre o Projeto Amazonas 62 porque é impossível compreender o Amazonas sem compreender sua capital. Mas a principal conclusão desta primeira matéria é que Manaus não deve ser vista como o destino final da economia amazonense. Ela precisa ser vista como plataforma.
A capital tem indústria, população, mercado, aeroporto, portos, universidades, centros de pesquisa, eventos, turismo, cultura, tecnologia e instituições. Tem também desigualdade, saneamento insuficiente, pressão urbana, dependência logística, vulnerabilidade climática e concentração econômica.
O futuro de Manaus dependerá de sua capacidade de fazer três movimentos ao mesmo tempo: preservar e modernizar o Polo Industrial; transformar a biodiversidade em bioeconomia de verdade; e usar sua força para irradiar desenvolvimento aos outros 61 municípios.
Manaus é o começo da série. Não é o centro exclusivo dela. A partir daqui o Projeto Amazonas 62 segue para revelar como cada município pode deixar de ser visto apenas como ponto no mapa e passar a ser compreendido como território de vocações, oportunidades, gargalos e possibilidades reais de desenvolvimento.

