O avanço do fungo Fusarium TR4 pela América do Sul coloca o Brasil em alerta. Sem variedades resistentes e com risco de contaminação iminente, a produção de banana pode sofrer perdas severas nos próximos anos.

A banana, presente em praticamente todas as casas, merendas e feiras do Brasil, enfrenta uma ameaça invisível e implacável: o Fusarium TR4, um fungo letal que ataca as raízes da planta e impede a absorção de água. Sem cura e altamente contagioso, ele já dizimou lavouras inteiras na Ásia e agora avança sobre a América do Sul.
Sem variedades comerciais resistentes e com grande parte da produção concentrada na cultivar Cavendish, o país se vê diante de um risco real à sua fruta mais consumida — e de alto impacto econômico e social.
Um velho inimigo em nova forma
O Fusarium oxysporum f. sp. cubense é conhecido desde o século XX, mas sua variante TR4 (Tropical Race 4) representa um salto de agressividade. Diferente das versões anteriores, essa raça não respeita fronteiras varietais e pode permanecer viva no solo por até 30 anos, mesmo após o fim da cultura.

A transmissão ocorre principalmente por solo contaminado em calçados, veículos e ferramentas agrícolas, o que torna seu controle especialmente difícil em regiões tropicais. Países como Filipinas, Indonésia e Moçambique já perderam milhares de hectares, enquanto a Colômbia declarou estado de emergência fitossanitária em 2019. Agora, com a detecção em países vizinhos, o Brasil acende o alerta vermelho.
O impacto que cabe na fruteira
A ameaça do TR4 vai além da lavoura: ela atinge o bolso, a mesa e até o imaginário coletivo dos brasileiros. A seguir, veja por que esse fungo pode se tornar uma crise nacional:
- Banana é a fruta mais consumida do Brasil, com mais de 27 kg por pessoa ao ano.
- 90% da produção brasileira é da variedade Cavendish, justamente a mais vulnerável ao TR4.
- Quase toda a produção é para consumo interno: uma queda afetaria merenda escolar, pequenos comércios e preços no varejo.
- O TR4 não afeta humanos, mas causa prejuízos milionários a produtores rurais.
- Erradicar focos exige medidas drásticas, como isolamento de áreas inteiras por décadas.
Com esses ingredientes, a narrativa de uma “banana em extinção” ganha força nas redes sociais, onde vídeos de plantações murchas e relatos de produtores circulam com tom alarmista, e alto engajamento.
O Brasil diante do desafio
Segundo artigo recente publicado na revista Frontiers in Plant Science, a América Latina carece de cultivares comerciais resistentes ao TR4 e de estratégias coordenadas de contenção. Em julho de 2025, fóruns organizados por OIRSA e Taiwan propuseram medidas emergenciais de rastreamento e quarentena, mas o Brasil ainda não tem um plano nacional articulado para lidar com a possível chegada do patógeno.
Pesquisadores da Embrapa e universidades já trabalham no desenvolvimento de variedades resistentes e em protocolos de biossegurança, mas os desafios são imensos: falta mapeamento genético em larga escala, investimento em educação sanitária rural e apoio técnico para pequenos produtores. Enquanto isso, o país corre contra o tempo para evitar que a praga entre e se espalhe, repetindo tragédias já vistas no exterior.
Referência da notícia
Fusarium Tropical Race 4 in Latin America and the Caribbean: status and global research advances towards disease management. 15 de julho, 2024. Munhoz, T., et. al.
