O Brasil vive um paradoxo fiscal. Nunca se arrecadou tanto. Nunca se tributou tanto. Nunca se prometeu tanto equilíbrio. E, ainda assim, o rombo persiste. As contas simplesmente não fecham.
O ano de 2025 foi celebrado pelo governo como um marco histórico. A arrecadação federal atingiu aproximadamente R$ 2,89 trilhões, o maior valor já registrado em termos reais. Janeiro de 2026 seguiu a mesma trilha, cerca de R$ 325 bilhões arrecadados apenas no primeiro mês do ano, também um recorde para a série histórica iniciada em 1995. Os números são superlativos. Impressionam. Mas escondem uma pergunta incômoda, qual seja, se a arrecadação é recorde, por que o déficit continua?
Segundo os dados oficiais, o setor público consolidado encerrou 2025 com um déficit primário de aproximadamente R$ 55 bilhões. Ou seja, mesmo antes de pagar os juros da dívida, o governo gastou mais do que arrecadou. Em termos práticos, o Brasil arrecadou como nunca, e ainda assim não conseguiu fechar as contas.
No discurso, aponta crescimento econômico, maior formalização do emprego, aumento da massa salarial e eficiência arrecadatória. Mas há outro lado que não é dito, o de que o peso crescente da carga tributária e a expansão contínua das despesas sufocam o crescimento do país.
Desde o início do atual mandato de Lula, levantamentos apontam a criação ou elevação de tributos numa média aproximada de uma nova medida a cada 37 dias. Em pouco mais de três anos, foram mais de duas dezenas de alterações envolvendo criação de impostos, aumento de alíquotas ou encerramento de benefícios fiscais. É um ritmo que não encontra paralelo recente.
Não se trata apenas de ajustes pontuais. O governo elevou o Imposto de Importação sobre mais de 1.200 produtos, afetando cadeias produtivas inteiras, da indústria de tecnologia a bens de capital. A justificativa foi proteger a indústria nacional e reforçar o caixa. Mas proteger quem, exatamente, quando o crédito está estrangulado e o crescimento é comprimido?
Porque há outro elemento nesse cenário que agrava o problema, os juros. Isso porque o Brasil figura entre os países com os maiores juros reais do planeta, ocupando frequentemente a segunda posição no ranking global. Com a taxa básica girando em torno de 15% ao ano e juros reais superiores a 9%, o país se tornou um dos ambientes mais caros do mundo para investir e produzir. O crédito é sufocado. O investimento é adiado. O consumo é retraído.
Juros altos podem conter inflação, esse é o argumento clássico. Mas também travam o crescimento, encarecem a dívida pública e ampliam o custo fiscal do próprio Estado. Cada ponto percentual na taxa básica representa bilhões a mais no serviço da dívida. Assim, o governo arrecada mais, mas paga ainda mais para financiar seu endividamento.
O resultado é um ciclo perverso onde, aumenta-se imposto para fechar as contas; a economia desacelera; a arrecadação depende cada vez mais de carga tributária elevada; o crescimento não acompanha; o déficit reaparece. E, quando se observa o comportamento das despesas, percebe-se que o ajuste não está no gasto. Está no bolso do contribuinte.
A narrativa oficial sustenta que o déficit de 2025 ficou “dentro da meta fiscal”. Mas cumprir a meta não significa zerar o rombo. Significa apenas que o resultado ficou dentro da margem permitida pelo novo arcabouço fiscal. A diferença é fundamental. O governo não entregou superávit. Entregou déficit autorizado. Enquanto isso, o peso do Estado se expande.
A comparação dos gastos com cartões corporativos ilustra o ponto. Considerando todos os cartões utilizados pela administração federal, o volume acumulado no atual governo já supera o total registrado ao longo dos quatro anos do governo anterior. Mesmo restringindo a análise à Presidência da República, os valores já ultrapassam o total de todo o mandato passado. Parte significativa dessas despesas permanece sob classificação sigilosa.
O cartão corporativo, é verdade, é instrumento legal e previsto. Mas simboliza algo maior, a dificuldade crônica de o Estado brasileiro impor limites a si próprio. Não é apenas uma questão de legalidade. É uma questão de prioridade. No caso, voltemos aos números centrais. Recorde de arrecadação em 2025. Recorde de arrecadação em janeiro de 2026. Mais de mil produtos com imposto de importação elevado. Nova medida tributária a cada pouco mais de um mês. Juros entre os mais altos do mundo. E, mesmo assim, rombo nas contas públicas.
A pergunta inevitável é, onde está o ajuste estrutural?
Se a receita cresce e o rombo permanece, o problema não está na insuficiência de arrecadação. Está na dinâmica da despesa. A máquina pública continua operando com rigidez extrema, pressionada por gastos obrigatórios crescentes, benefícios indexados e expansão de compromissos permanentes.
A elevação da carga tributária pode produzir efeitos imediatos no caixa, mas não resolve o desequilíbrio estrutural. Pelo contrário, pode corroer a base produtiva que sustenta a arrecadação futura. Pois, empresas enfrentam crédito caro, impostos mais altos e incerteza regulatória. Investidores observam juros elevados e risco fiscal persistente. Consumidores convivem com preços pressionados e renda comprimida.
Há ainda um efeito colateral pouco debatido, a distorção competitiva. Ao elevar impostos de importação sobre mais de 1.200 produtos, o governo encarece insumos e equipamentos que muitas vezes não possuem substituto nacional competitivo. O resultado pode ser aumento de custos na própria indústria doméstica, justamente aquela que se pretendia proteger.
Somado a isso, a arrecadação recorde de janeiro de 2026 não deve ser lida isoladamente. Janeiro é tradicionalmente um mês forte em recolhimento de tributos ligados ao fechamento do exercício anterior. A euforia do número absoluto não elimina o fato de que o resultado anual anterior terminou no vermelho.
O país vive, portanto, um desequilíbrio conceitual. Celebra-se a arrecadação como se fosse sinônimo de saúde fiscal. Não é. Saúde fiscal é equilíbrio sustentável entre receitas e despesas. É crescimento capaz de expandir a base tributária sem sufocar a atividade produtiva. É dívida sob controle em proporção ao PIB. É previsibilidade.
O Brasil, hoje, convive com arrecadação recorde e juros recordes, mas não com equilíbrio. A insistência em elevar tributos como resposta prioritária revela uma escolha política clara, a de que o ajuste será feito pelo aumento da receita, não pela revisão estrutural do gasto. É um caminho mais fácil no curto prazo. Porém devastador no longo.
O Brasil não pode viver permanentemente de recordes de arrecadação acompanhados de recordes de justificativas. O debate fiscal precisa sair do terreno da celebração de receitas e entrar no campo da responsabilidade estrutural. O desafio não é arrecadar mais. É gastar melhor. Não é criar novos tributos. É rever prioridades. Não é ampliar o peso do Estado. É torná-lo eficiente.
Enquanto essa equação não for enfrentada com transparência e coragem política, o país continuará preso a um ciclo repetitivo em que se aumenta imposto, comemora-se arrecadação, constata-se déficit. E nós contribuintes pagamos a diferença.
Acorda Brasil!
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