O Brasil contabilizou 57.329 casos de estupro de vulnerável em 2025. A média diária chegou a 157 registros. A região Norte concentrou os maiores índices do crime no país, com cerca de 25 ocorrências por dia.
O Poder360 compilou os números a partir de dados oficiais fornecidos pelos governos dos Estados e do Distrito Federal ao Ministério da Justiça e Segurança Pública.

O Código Penal brasileiro tipifica estupro de vulnerável como a prática de “conjunção carnal ou outro ato libidinoso” com pessoas incapazes de consentir.
São considerados vulneráveis os menores de 14 anos e os indivíduos que não conseguem, por doença ou deficiência mental, compreender e consentir o ato. A classificação inclui também pessoas sob qualquer condição que comprometa a capacidade de oferecer resistência.
As mulheres representaram 84% dos casos documentados em território nacional em 2025. O levantamento mostra que, em comparação com 2024, houve crescimento de 10,6% no número total de casos. Especialistas, no entanto, indicam que o crime ainda é subnotificado.
Isabella Matosinhos, pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, afirma que os registros oficiais quantificam parte do problema.
“Muitas vítimas não conseguem identificar que o que viveram constitui um crime”, afirmou. Segundo ela, a maioria dos casos também se dá em ambientes familiares ou em círculos de confiança, permeados por relações de poder, dependência econômica e mecanismos de silenciamento, que dificultam a denúncia.
NÚMEROS POR ESTADO
Em termos proporcionais, Roraima tem a maior taxa de ocorrências as unidades da Federação: no ano passado, foram contabilizadas 73,1 vítimas para cada 100 mil habitantes.
Rondônia aparece na 2ª posição do ranking nacional em 2025. Na sequência estão Amapá, Pará e Acre, todos da região Norte, completando o top 5. Governadores de perfil mais à direita comandam 8 dos 10 Estados com os maiores números de estupro de vulnerável registrados no ano passado.
Para Matosinhos, as vulnerabilidades estruturais e territoriais dos Estados nortistas ajudam a explicar a concentração de casos naquela região. Limitações no acesso a escolas, serviços de saúde, assistência social e delegacias especializadas comprometem a capacidade de prevenção da violência sexual nessas localidades.
“Em contextos de maior dependência econômica, isolamento territorial e menor presença do Estado, a capacidade de romper o silêncio e denunciar tende a ser ainda menor. E isso se aplica diretamente à realidade da Região Norte“, disse a pesquisadora.
Desde as últimas eleições gerais, que resultaram na troca ou renovação dos mandatos dos governadores, Amazonas e Pará registraram aumentos nos casos de estupro de vulnerável em comparação com 2022. Os percentuais subiram 97,3% e 26,4%, respectivamente.

OUTRO LADO
Ao Poder360, a Secretaria de Comunicação de Roraima informou que o governo estadual intensificou ações integradas para combater o crime de estupro de vulnerável em todo o território. As iniciativas seguem diretrizes federais e envolvem articulação entre órgãos de segurança pública e autoridades judiciárias. Leia a íntegra da nota (PDF – 52,8 KB).
O Pará, que está entre as 10 UFs com maiores índices do crime, declarou que o governo estadual reforçou o efetivo das Polícias Civil e Militar para melhorar o atendimento à população. Segundo a nota (PDF – 49,3 KB), o Estado também instalou duas bases fluviais nas cidades de Breves, no Marajó, e em Óbidos, na região do Baixo Amazonas, medida que tem auxiliado no combate a diversos crimes.
O Paraná informou que o compromisso com o enfrentamento à violência de gênero resultou em uma redução de crimes contra mulheres na unidade federativa. “O mesmo acontece com as ocorrências envolvendo estupro de vulneráveis, que registraram uma diminuição de 15% em 2025, em comparação com o ano anterior”, diz em nota (PDF – 46,6 KB).
Leia outros posicionamentos de governos:
- Acre (PDF – 51,8 KB) – “O governo reafirma seu compromisso permanente com a prevenção, repressão e conscientização no combate aos estupros de vulneráveis e às violências contra crianças, mulheres e idosos, atuando de maneira integrada, contínua e durante todo o ano em todo o estado”;
- Tocantins (PDF – 51,5 KB) – “A Secretaria de Estado da Segurança Pública do Tocantins (SSP/TO) informa que está empenhada em ações de combate ao crime de estupro de vulnerável no estado. No ano de 2025, as medidas tomadas pela secretaria levaram a uma queda de 10,58% na quantidade de vítimas desse tipo de crime em relação ao ano de 2024”;
- Goiás (PDF – 45,1 KB) – “Goiás possui estrutura consolidada para o atendimento, com delegacias especializadas e atuação integrada com o sistema de justiça. Todos os registros são rigorosamente apurados, com foco na responsabilização dos autores e na proteção integral das vítimas”.
METODOLOGIA
O Poder360 contabilizou as informações apresentadas nesta reportagem a partir de dados compilados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, no Sinesp (Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, Prisional, de Rastreabilidade de Armas e Munições, de Material Genético, de Digitais e de Drogas).
Em vez de recorrer a números absolutos, este jornal digital optou por analisar o cenário nacional utilizando o número de casos por 100 mil habitantes. O indicador mostra a proporção de ocorrências em relação ao tamanho da população.
Esta reportagem foi produzida pela trainee em Jornalismo do Poder360 Bianca Penteado sob a supervisão do editor sênior Rafael Barbosa.
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