O acompanhamento de saúde do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) seria mais seguro em regime de prisão domiciliar neste momento, segundo avaliação do médico infectologista , ex-secretário da Saúde de São Paulo (2020-2022).
Para o especialista, o principal desafio clínico no caso envolve possíveis distúrbios de deglutição –condição mais comum em pacientes idosos e que pode ser agravada pelo histórico de cirurgias abdominais decorrentes da facada sofrida em 2018. Segundo ele, esse contexto exige acompanhamento diário de fonoaudiólogos, readequação constante da dieta e monitoramento da musculatura envolvida na alimentação.
“A prisão domiciliar é uma necessidade médica neste momento para que ele possa ser acompanhado por profissionais de saúde que possam testar constantemente como estão as suas capacidades de alimentação.”
Segundo Gorinchteyn, a disfagia (dificuldade para engolir) pode fazer com que alimentos, líquidos ou até saliva sigam para as vias respiratórias em vez de para o esôfago.
“Quando pensamos em pneumonia aspirativa, estamos falando de uma situação em que algum conteúdo –alimento, líquido ou saliva– acaba sendo aspirado e vai parar no pulmão. E isso leva a uma infecção”, explicou sobre o atual quadro clínico.
Nesses casos, o pulmão direito costuma ser o mais atingido por causa da anatomia das vias aéreas. No caso específico de Jair Bolsonaro, porém, os exames indicaram comprometimento dos 2 pulmões.
Dieta adaptada e acompanhamento diário
De acordo com o médico, pacientes com esse tipo de condição precisam de reavaliação constante, baseada na interação com profissionais e exames.
Fonoaudiólogos avaliam e acompanham a capacidade de deglutição e orientam ajustes na consistência de alimentos e líquidos para reduzir o risco de aspiração e afogamento. A fisioterapia respiratória também é usada para preservar a musculatura envolvida na respiração e ajudar a evitar novas complicações pulmonares.
Segundo o médico, esses cuidados se tornam ainda mais importantes com o avanço da idade, que traz mudanças fisiológicas relevantes.
“Uma das principais é a perda de massa muscular. Isso não afeta apenas os músculos esqueléticos, aqueles que movimentam braços e pernas, mas também outros músculos, como aqueles envolvidos na deglutição e no funcionamento intestinal.”
Sem acompanhamento adequado, afirma, os distúrbios de deglutição podem evoluir rapidamente. Por isso, diz que, do ponto de vista médico, a prisão domiciliar seria importante para estabilizar o quadro clínico.
Segundo Gorinchteyn, a restrição de espaço no ambiente prisional, a dificuldade de adaptação imediata da dieta e a ausência de monitoramento constante podem aumentar o risco de novas infecções ou de episódios de aspiração.
Ele também afirma que a restrição de mobilidade no ambiente prisional tende a acelerar a atrofia muscular, sobretudo em pacientes idosos. O quadro de depressão enfrentado pelo ex-presidente, diz, pode agravar esse processo, já que a prostração resultante reduz o movimento e contribui para a perda mais rápida de massa muscular.
Antibióticos e cuidados atuais
Sobre o quadro atual de Bolsonaro, Gorinchteyn explica que a pneumonia aspirativa costuma provocar não apenas infecção pulmonar, mas também resposta inflamatória mais ampla no organismo. No caso de Bolsonaro, essa resposta inflamatória também atingiu a função renal.
“Em determinados casos, o que se observa é uma resposta inflamatória mais difusa, sistêmica, que pode acabar comprometendo outros órgãos além do pulmão, como o rim.”
O acompanhamento clínico inclui avaliação da presença de febre e de marcadores inflamatórios no sangue. Um dos principais é o PCR (proteína C reativa).
“Se o paciente continua com febre ou se o PCR permanece elevado ou em ascensão, isso pode indicar que o antibiótico inicial pode não estar cobrindo adequadamente a infecção.”
Nessas situações, a equipe médica pode ampliar a cobertura antibiótica para atingir outros possíveis agentes infecciosos. Foi o que o boletim médico divulgado neste domingo (15.mar) informou ter ocorrido com o ex-presidente.
Ainda assim, se o paciente permanece clinicamente estável e sem febre, a troca do antibiótico pode fazer parte do protocolo de monitoramento e ajuste do tratamento, sem necessariamente indicar agravamento do quadro, afirmou Gorinchteyn.
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