Provavelmente você já ouviu falar do BPA (bisfenol A), uma substância tóxica presente em muitos plásticos. Há cerca de 15 anos, ela vem sendo banida no mundo todo de produtos como mamadeiras, e retirada de vasilhas plásticas usadas para aquecer alimentos.
O alerta não é à toa. O BPA passou a ser apontado como disruptor endócrino, ou seja, uma substância que interfere no sistema hormonal humano. Ele tem propriedades semelhantes ao estrogênio e, mesmo em doses muito baixas, pode causar efeitos negativos à saúde reprodutiva e ao funcionamento do fígado, do pâncreas e da tireóide, especialmente em fetos.
O BPA pode ser absorvido pela pele, inalado e acumulado em diferentes tecidos do corpo. Estudos mostram que ele pode atravessar a barreira placentária e estar presente na urina e no sangue de mães e recém-nascidos, além de ser detectado no leite materno.
Mesmo com restrições legais em vários países, o BPA ainda pode estar presente em mamadeiras, chupetas e copinhos mais antigos ou sem certificação. Também é comum em produtos plásticos como brinquedos, pratos, talheres e potes, no revestimento interno de latas de alimentos e bebidas, no papel térmico usado para emitir notas fiscais e em garrafas termoplásticas de policarbonato –aquelas resistentes e transparentes, geralmente usadas para atividades esportivas.
DISPOSITIVOS ESSENCIAIS, RISCOS INVISÍVEIS
A presença do BPA vem sendo identificada em dispositivos e equipamentos médicos. Estudos demonstram que pacientes hospitalizados podem apresentar níveis de BPA no sangue muito superiores aos da população geral, por causa do contato direto e prolongado com esses materiais.
Na área médica, o BPA representa uma fonte crítica de exposição, especialmente para idosos e pacientes internados. Ele pode estar em cateteres intravenosos, tubos de hemodiálise, sondas enterais e urinárias, equipamentos de oxigenação e UTI, além de recipientes para soluções e medicamentos. A substância também tem sido utilizada em produtos médicos para a fixação de próteses, sondas para nutrição enteral, equipamentos de hemodiálise, tubos traqueais, luvas e cateteres intravenosos.
Nós, pesquisadores da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), fizemos a 1ª revisão sistemática da literatura científica sobre esse tema. Consultamos diversos repositórios nacionais e internacionais de publicações médicas sobre a exposição de pacientes ao BPA por meio de dispositivos médico-hospitalares.
Os resultados de nosso estudo foram publicados no periódico Environmental Toxicology and Pharmacology. A pesquisa seguiu a estratégia de revisão conhecida como PICO, um acrônimo para: Paciente, Intervenção (ou exposição), Comparação e Desfecho. Esse método é focado nos 4 pilares de uma questão clínica. Assim, reunimos informações sobre o uso de dispositivos médico-hospitalares que detectaram níveis de exposição ao BPA.
Inicialmente, identificamos cerca de 9.750 artigos científicos sobre o tema. Após a remoção dos registros duplicados, permanecemos com quase 7.130 estudos.
Todos os artigos descreveram resultados de pesquisas realizadas com pacientes. O número total de pacientes nos estudos clínicos foi de 2.305. Após a aplicação dos critérios de exclusão e da análise qualitativa, apenas 12 artigos foram analisados em profundidade, o que evidencia a escassez na produção científica de qualidade sobre o tema.
Vale destacar que, por se tratar de um campo com poucos estudos clínicos, é difícil a avaliação preditiva dos níveis de BPA. Falta padronização na obtenção de amostras e há possibilidade de contaminação pelos próprios dispositivos plásticos utilizados na coleta.
LACTENTES, CRIANÇAS E IDOSOS
Identificamos 6 grupos distintos de pacientes nos estudos selecionados. Três pesquisas analisaram amostras de lactentes. Um estudo avaliou crianças e adolescentes com doença renal crônica. Quatro pesquisas envolveram pacientes adultos em terapia de hemodiálise, e outra analisou pacientes diabéticos também em terapia de hemodiálise. Um dos manuscritos relata dados de adultos internados em UTIs (unidades de terapia intensiva), enquanto outro investigou amostras de parturientes.
De modo geral, os estudos indicam que a exposição ao BPA aumenta após o uso desses dispositivos médicos. Em pacientes com doença renal crônica, observaram uma associação positiva entre os níveis de BPA no sangue e a gravidade da doença.
Apesar das fragilidades metodológicas, os trabalhos relataram que pacientes expostos a dispositivos médico-hospitalares por períodos prolongados apresentam níveis mais elevados de BPA no soro e na urina.
Uma das principais limitações identificadas foi a ausência da medição dos níveis basais de BPA nos pacientes antes da exposição aos dispositivos médicos. Isso reforça a necessidade de novos estudos que forneçam evidências mais consistentes sobre essa exposição e suas consequências para a recuperação dos pacientes. Também é preciso suprir a carência de estudos toxicológicos que determinem margens de segurança.
Embora os efeitos toxicológicos da exposição ao BPA por meio de dispositivos médicos não sejam amplamente conhecidos, chama a atenção o fato de que, em todos os estudos revisados, o BPA foi detectado em quantidades significativas no sangue e na urina dos pacientes, independentemente da idade ou da via de administração.
Assim, o risco potencial não deve ser descartado, o que reforça a necessidade de cuidado especial no uso de dispositivos médicos que contenham esse desregulador endócrino.
BPA-FREE: FALSA PROPAGANDA?
Atualmente, o BPA vem sendo substituído por análogos comerciais, como o BPS, o BPF, o BPAF, ainda sem regulamentação específica das agências reguladoras. Esses compostos são utilizados pela indústria para a produção de plásticos rotulados como “livres de BPA” (BPA-free).
No entanto, ainda há poucos estudos em humanos e animais que avaliem a segurança desses compostos. Assim, todo cuidado é pouco, pois esses substitutos também podem afetar a nossa saúde. O que, aliás, têm preocupado pesquisadores e profissionais da área da saúde.
Acreditamos que tornar visível esse risco é o 1º passo para assegurar que dispositivos médicos se tornem, de fato, mais seguros. É preciso investir em mais pesquisas, desenvolver novas alternativas seguras e revisar práticas, com regulamentações que sejam baseadas em evidências. Assim, pode ser possível minimizar a exposição a substâncias potencialmente nocivas durante o cuidado em saúde.
Este texto foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o original aqui.
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