Um acordo entre Brasil e Estados Unidos buscará aumentar a fiscalização de ambos os países no combate ao crime organizado. O principal objetivo é o compartilhamento mútuo de informações sobre a entrada de armas, peças e drogas em contêineres.
O Programa Desarma vai ampliar a capacidade de rastreamento internacional desses materiais. O envio de informações será feito em tempo real, sempre que a aduaneira brasileira e dos EUA identificar que os produtos vieram de origem do outro país parceiro.
Em 12 meses, o Fisco apreendeu meia tonelada de armas vindas dos Estados Unidos, segundo o secretário da Receita Federal, Robinson Barreirinhas. Foram 35 ocorrências com apreensão de 1.168 partes e peças com cerca de 550 kg de material bélico. A origem é principalmente da Flórida (EUA).
Os dados agora serão compartilhados com as autoridades norte-americanas para um acompanhamento mais rápido das ocorrências. Serão informados os exportadores, os remetentes e outros operadores envolvidos no envio dos materiais. O sistema poderá ser utilizado tanto em apreensões em portos e aeroportos quanto em remessas internacionais.
Segundo a Receita Federal, os EUA já partilham informações que têm resultados práticos. O Fisco declarou que foi possível identificar armas de fogo, com partes de fuzis escondidas em estruturas de equipamentos de airsoft e drogas camufladas em embalagens de produtos, como ração animal.
ACORDO COM OS EUA
A equipe econômica de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou nesta 6ª feira (10.abr.2026) a “Ação Brasil-EUA contra o crime organizado”, uma parceria da Receita Federal com o CBP (U.S. Customs and Border Protection), a agência de fronteiras norte-americana, para o combate ao crime transnacional.
O Projeto MIT (Mutual Interdiction Team, ou equipe de interdição mútua, em português) vai “integrar esforços de inteligência e operações conjuntas” para interceptar remessas ilícitas de armamentos e entorpecentes.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, declarou que a medida é o “1º passo relevante” depois da conversa em 2 de dezembro entre Lula e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Republicano). Disse que esse compartilhamento mútuo de dados não existia anteriormente e que o programa vai mirar “alvos a distância” de pessoas que abastecem o crime organizado.
Durigan declarou que os países vão compartilhar informações de imagens em raio-x de contêineres de maneira digital e de fluxo contínuo para identificar armas e drogas que estão a caminho do Brasil, intermediadas pelas facções. Cada país tinha esse material que identificava as peças bélicas, mas não havia o compartilhamento com as autoridades do país de origem.
“Sem a necessidade de haver viagem e intercâmbio pessoal de autoridades dos Estados Unidos para o Brasil e do Brasil para os Estados Unidos, há uma espécie de raio x do que sai dos portos dos EUA e do que vem para o Brasil, nos contêineres e de outras informações”, disse.
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, disse que a colaboração entre os países acrescenta no enfrentamento ao crime organizado. Afirmou que Lula busca essa “grande parceria” com outros países para dar capilaridade no enfrentamento às facções criminosas.
“Temos, no pilar da cooperação internacional, um grande eixo para o enfrentamento qualificado ao crime organizado. As organizações não são mais locais. Precisamos, portanto, buscar vários mecanismos e parceria com todas as agências”, disse.
O Banco Master, fundado por Daniel Vorcaro, que está preso, bancou a viagem do diretor-geral da PF para sua participação no 1º Fórum Jurídico – Brasil de Ideias, realizado em abril de 2024, antes das investigações sobre irregularidades no banco. Ele deixou a entrevista com jornalistas sem responder perguntas da imprensa.
Durigan disse que a entrevista não poderia “mudar o tema”. No caso Master, o Banco Central liquidou a CBSF Distribuidora, ex-Reag Investimentos, fundo que recebeu recursos provenientes do banco para fraudes, segundo a autoridade monetária. A gestora de recursos e patrimônio já foi investigada pela Polícia Federal por lavagem de dinheiro do crime organizado.
DESARMA
O Desarma é um sistema informatizado da Receita Federal que amplia a capacidade de rastreamento internacional de armas e materiais sensíveis. O programa permite o compartilhamento, em tempo real, de informações entre os 2 países, sempre que a aduana brasileira identificar produtos de origem americana relacionados a armas, munições, peças, componentes, explosivos e outros itens sensíveis e vice-versa.
A ferramenta registra e organiza dados estratégicos das apreensões, como tipo de material, origem declarada, informações logísticas da carga e eventuais identificadores ou números de série, permitindo o rastreamento da origem desses produtos e o mapeamento de redes ilícitas de comércio internacional de armas.
O secretário da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, disse que o compartilhamento de dados com a Polícia Federal já existia, mas era preciso ampliar essa informação para outros países. Ele declarou que a medida proporciona inteligência ao país norte-americano para atuar na sua jurisdição. Ele citou um exemplo:
“Eu abri um contêiner e tem um fuzil aqui dentro. Por favor, bata na porta do senhor tal, da empresa tal e no endereço tal e veja o que aconteceu. Veja se foi ele que colocou a peça de fuzil”, disse Barreirinhas.
O secretário disse que uma pessoa foi condenada na Flórida em fevereiro porque planejava o envio de peças de fuzil para o Brasil. Barreirinhas disse esperar que essa movimentação se amplie.
COMPARTILHAMENTO DE DADOS
O sistema vai enviar alertas às autoridades aduaneiras dos EUA. Barreirinhas disse que há processos em andamento para que esse compartilhamento seja feito com outros países.
O Brasil poderá informar dados sobre exportadores, remetentes e outros operadores envolvidos nas operações, “sempre nos limites dos acordos internacionais firmados pelo Brasil e com garantia de tratamento sigiloso, seguro e rastreável das informações”.
O sistema poderá ser utilizado tanto em apreensões em portos e aeroportos quanto em remessas internacionais, operações especiais de fiscalização e ações integradas com outros órgãos de investigação, ampliando a capacidade de resposta do Estado brasileiro.
Segundo a Receita Federal, a agenda conjunta teve início em janeiro de 2026, após visita técnica a Foz do Iguaçu (PR), que consolidou o alinhamento entre os 2 países, com foco especial no fortalecimento da atuação em rotas sensíveis, como a região da Tríplice Fronteira. Eis a íntegra do comunicado (PDF – 167 kB).
TRUMP E LULA
Em dezembro de 2025, o encarregado de Negócios dos Estados Unidos no Brasil, Gabriel Escobar, se reuniu com o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT) para tratar sobre a parceria. Na época, Haddad declarou que viu “entusiasmo” do embaixador interino para avançar no combate ao crime organizado.
O ex-ministro disse, na época, que a reunião foi pedida pela Embaixada dos EUA a partir de uma “provocação” com a carta enviada ao país norte-americano depois do telefonema entre Lula e Trump. Eles conversaram por cerca de 40 minutos para tratar sobre comércio e cooperação contra o crime organizado.
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