Auditorias e investigações apontam a existência de centenas de milhares de contratos considerados suspeitos
BRASÍLIA – Fundado em 2018 e consolidado como um dos principais bancos digitais do país, o C6 Bank enfrenta hoje um dos momentos mais delicados de sua trajetória. A instituição, que cresceu rapidamente oferecendo crédito, cartões e serviços financeiros via aplicativo, tornou-se alvo de investigações relacionadas a descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
O banco, criado por ex-executivos do mercado financeiro e com participação relevante do grupo norte-americano JPMorgan Chase, ampliou sua base de clientes nos últimos anos com forte atuação no crédito consignado — modalidade que permite o desconto direto das parcelas na folha de pagamento ou benefício previdenciário. É justamente nesse segmento que se concentram as denúncias.
Auditorias e investigações apontam a existência de centenas de milhares de contratos considerados suspeitos, muitos deles associados a empréstimos não autorizados ou à inclusão de serviços adicionais, como seguros, sem o consentimento do beneficiário. Há ainda relatos recorrentes de aposentados que identificaram descontos em seus benefícios sem terem firmado qualquer contrato.
Diante da gravidade das denúncias, o INSS adotou medidas restritivas contra a instituição. Entre elas, a suspensão de novas operações de crédito consignado vinculadas ao banco, além da exigência de revisão de contratos e possível devolução de valores cobrados indevidamente. Estimativas apontam que os montantes envolvidos podem alcançar centenas de milhões de reais.
O caso também ganhou dimensão judicial e política. Diversas ações individuais já resultaram em condenações do banco, com decisões que determinam a suspensão dos descontos e o pagamento de indenizações por danos morais. Paralelamente, o Ministério Público Federal ingressou com ação para apurar possíveis irregularidades na concessão de empréstimos consignados sem autorização dos beneficiários.
No Congresso Nacional, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga fraudes no INSS incluiu o C6 Bank entre as instituições sob análise. Executivos do banco foram convocados a prestar esclarecimentos, evidenciando a relevância do caso no cenário nacional.
Atualmente, o relacionamento entre o C6 Bank e o INSS é considerado crítico. A instituição financeira opera sob forte escrutínio regulatório, com restrições impostas e monitoramento intensificado por órgãos de controle. Especialistas apontam que o episódio pode gerar impactos significativos não apenas financeiros, mas também reputacionais para o banco.
O escândalo dos descontos indevidos expõe fragilidades no sistema de crédito consignado brasileiro e levanta questionamentos sobre a proteção de aposentados — grupo considerado especialmente vulnerável. Enquanto as investigações avançam, cresce a pressão por maior rigor na fiscalização e por mecanismos que garantam mais transparência e segurança nas operações financeiras envolvendo benefícios previdenciários.
