O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, disse, nesta 4ª feira (8.abr.2026), que a autoridade monetária tem limitações orçamentárias e de pessoal para fazer a supervisão adequada das empresas do setor financeiro. Pediu “socorro” aos senadores para aprovação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 65 de 2023, que amplia a autonomia da instituição.
“Desde a minha sabatina, fui mudando o pedido. Pedi apoio no início, pedi ajuda e peço socorro. Tem um projeto que está aqui dentro da Casa [do Senado] há bastante tempo, o projeto da PEC do BC, que nos faz equiparar ao que é o arcabouço legal e institucional dos bancos centrais do resto do mundo”, disse.
Galípolo falou à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Crime Organizado. Ele tratou da liquidação do Banco Master e a atuação da autoridade monetária.
Segundo o presidente do Banco Central, o texto da PEC já está encaminhado para ser votado.
“Seria muito importante, dado que o Brasil é um dos países que mais tem fundo no mundo, que mais tem empresas financeiras […], é muito importante que os órgãos de fiscalização consigam se equiparar e avançar nisso”, disse Galípolo.
Ele declarou que, além de mais funcionários supervisores, é necessário investir em sistemas de inteligência artificial, como fazem outros países, para aprimorar a fiscalização. Ele disse que a fraude do Master foi de R$ 12 bilhões, enquanto o sistema financeiro tem R$ 15 trilhões em ativos.
“Cada um desses bancos centrais vem desenvolvendo internamente essa tecnologia. Nós temos competência para isso, não conseguimos em função das limitações que temos hoje”, afirmou Galípolo.
O presidente do BC afirmou que o crime organizado atua com dinheiro e tecnologia para encontrar maneiras novas de burlar a legislação. Defendeu que é preciso investir em pessoas na supervisão.
“A realidade é: o Brasil muitas vezes tem um servidor para acompanhar 30 instituições, e o Brasil é um dos países que mais tem instituições”, disse. Galípolo declarou que, na Europa, são 30 pessoas para cuidar de uma instituição. “É o inverso”, afirmou.
O presidente do Banco Central informou que a autoridade monetária tem limitação “tremenda” no arranjo regulatório das contas. Ele citou também que houve uma redução da equipe.
“O Banco Central nos últimos 10 anos perdeu ¼ do seu pessoal, não porque o pessoal foi trabalhar no mercado, mas por aposentadoria. Hoje, nós temos aproximadamente 3.000 servidores. Só para dar um exemplo, o banco central nos Estados Unidos, o Federal Reserve, tem 23.000”, disse. Ele afirmou que o banco central indiano tem 13.000 funcionários públicos.
Galípolo declarou que o Banco Central desenvolveu o Pix, que é uma ferramenta que atua 24 horas por dia, inclusive aos finais de semana.
“Os servidores do Banco Central muitas vezes estão trabalhando de madrugada ou ao fim de semana pelo puro senso de responsabilidade que eles têm com o sistema financeiro. Não há qualquer tipo de adicional para quem trabalha de madrugada ou fim de semana”, declarou.
A PEC está em análise na CCJ (Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania).
AUDIÊNCIA PÚBLICA
O presidente do BC foi convidado pela CPI para explicar a atuação do Banco Central no caso Master, ao maior escândalo bancário da história que pode culminar em um possível acordo de delação premiada que tem reflexos nos Três Poderes. O relator da CPI é o senador Alessandro Vieira (MDB-SE).
O fundador do Master, Daniel Vorcaro, está preso pela 2ª vez desde 4 de março. É investigado por corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos.
Galípolo teve reunião fora da agenda pública no Palácio do Planalto em 4 de dezembro de 2024 com Vorcaro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e outras autoridades. Na época, ele não informou sobre o encontro ao então presidente do Banco Central Roberto Campos Neto.
O presidente do Banco Central comentou as investigações que resultaram em um rombo de quase R$ 52 bilhões no FGC (Fundo Garantidor de Créditos). Ele é ouvido na condição de testemunha.
Assista (1h44min):
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INSCRIÇÃO DO MASTER
Segundo Galípolo, o Master teve uma 1ª negativa do Banco Central para se credenciar como instituição financeira em fevereiro 2019. Segundo ele, a origem dos recursos apresentada para formar o capital mínimo não estava clara. Na época, o presidente do Banco Central era Ilan Goldfajn.
A autorização foi concedida em outubro de 2019, sob gestão de Roberto Campos Neto. “O entendimento da área técnica é que ele apresentou uma outra origem de recursos e que, a partir daí, estava atendido o que antes tinha sido rejeitado”, disse Galípolo.
O presidente do Banco Central disse que não existiam fatos jurídicos que configurassem desrespeito à reputação ilibada necessária para a criação de uma instituição financeira. Ele declarou que auditorias e sindicâncias não atribuíram culpa a Campos Neto no caso Master.
BRB
O Banco Central descobriu os créditos podres do Master durante a negociação de compra em 2025 do Master pelo BRB (Banco de Brasília), estatal do Distrito Federal. O BRB agora está em situação financeira alarmante depois de comprar R$ 12,2 bilhões em carteiras do Master.
A estatal entregou em fevereiro deste ano um plano de capital com medida para recompor o balanço e reforçar a liquidez, mas corre risco de ser liquidada pelo Banco Central, assim como o Banco Master. O BRB não divulgou o balanço financeiro do ano passado, o que elevou as incertezas em relação ao futuro do banco.
O Banco Central teve “certeza” da inexistência de lastro em carteira de crédito em 27 de junho de 2025. As autoridades competentes –Ministério Público Federal e Polícia Federal– foram comunicadas em julho. A 1ª fase da operação Compliance Zero foi realizada em novembro.
Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, do Banco Central, são suspeitos de facilitar interesses do Master na autoridade monetária. A CGU (Controladoria Geral da União) também instaurou processos administrativos disciplinares. Paulo Sérgio Souza foi diretor de Fiscalização do Banco Central de 2017 a 2023, durante os governos Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL), sendo indicado pelos 2 ex-presidentes para o cargo.
Paulo Souza é alvo de investigações da PF por fornecer informações privilegiadas para Daniel Vorcaro. Belline e Souza atuavam no Desup (Departamento de Supervisão Bancária) e foram afastados dos cargos em 4 de março deste ano.
As investigações assumem duas frentes:
- uma da CGU (Controladoria Geral da União), com possíveis sanções administrativas;
- uma da Polícia Federal, do ponto de vista criminal.
Galípolo já disse que a autoridade monetária tem um sentimento de “consternação” depois do caso do Master. Na época, defendeu que a ética é um valor “muito caro” aos funcionários públicos da instituição e pediu “ajuda” para a aprovação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 65 de 2023 no Congresso, que amplia a autonomia financeira do Banco Central em relação ao governo federal.
De acordo com Galípolo, o diretor de Fiscalização do BC, Ailton Aquino, identificou em janeiro de 2025 que o Master estava fazendo venda de novas carteiras por causa dos problemas de liquidez, mesmo com as dificuldades de novas captações.
Um grupo de análise começou os trabalhos em fevereiro e identificou, em março, que as carteiras não tinham lastros. Os documentos obtidos eram, segundo Galípolo, insuficientes para constatar uma fraude, mas o BC procurou respostas mais satisfatórias sobre a origem dos créditos.
O Banco Central teve dificuldade para encontrar evidências e avançou nas investigações durante o processo de análise de compra do Master pelo BRB.
O BC defende que o rito legal do processo foi respeitado para que não houvesse questionamentos posteriores. O BC deu “chances” para que fosse esclarecido, e o tempo de apuração foi destinado para fundamentar o processo e avisos às autoridades competentes.
CASO MASTER
O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025. O fundador da instituição financeira, Daniel Vorcaro, firmou em 19 de março de 2026 um acordo de confidencialidade com a PF (Polícia Federal) e com a PGR (Procuradoria Geral da República) que possibilita a delação premiada. O documento expõe riscos de várias autoridades públicas de Brasília. Esse acordo foi assinado quase 12 meses depois do anúncio de compra pelo BRB (Banco de Brasília), que tenta se recuperar financeiramente após a operação.
O Master foi responsável pelo rombo recorde no FGC (Fundo Garantidor de Créditos), de quase R$ 52 bilhões, mesmo tendo somente 0,57% do ativo total e 0,55% das captações do sistema financeiro nacional. Também provocou prejuízo de quase R$ 2 bilhões para Estados e municípios nos fundos de Previdência.
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