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A Apollo 11 levou os primeiros astronautas à Lua em 1969, mas a jornada até a superfície lunar começou, na realidade, 43 anos antes, no nevado Estado norte-americano de Massachusetts.
Há 100 anos, em 16 de março de 1926, Robert H. Goddard lançou o 1º foguete movido a combustível líquido. Os foguetes movidos a combustível líquido acabariam por fornecer a propulsão necessária para enviar humanos à Lua. Ainda assim, o veículo de Goddard era pequeno, voou por só 42 segundos, atingiu uma altura de meros 56 metros e sofreu danos que deixaram mais céticos do que crentes nas perspectivas de voos espaciais tripulados.
Apesar desse início nada espetacular da era espacial, o foguete de Goddard foi o começo de um século de inovação.
Hoje, centenas de foguetes são lançados a cada ano. Foguetes gigantes movidos a combustível líquido combinam oxidante líquido –uma substância que libera oxigênio– e combustível líquido. Isso provoca reações químicas que produzem o empuxo explosivo necessário para impulsionar seres humanos à Lua.
Como historiador, passei 40 anos estudando o caminho sinuoso que levou ao desenvolvimento dos foguetes modernos. Também vi como, nos últimos anos, empresas privadas têm desempenhado um papel muito mais importante nos voos espaciais do que desempenharam durante a maior parte de sua história.
Os primórdios dos voos espaciais
Após o primeiro lançamento de um foguete movido a combustível líquido por Goddard, o desenvolvimento da indústria de foguetes norte-americana avançou a passos de tartaruga até a 2ª Guerra Mundial. A invenção da Alemanha nazista do míssil V-2 provou que os foguetes podiam oferecer imenso valor estratégico e científico tanto em tempos de guerra quanto de paz.
Na guerra, o V-2 aterrorizou a Grã-Bretanha e seus aliados. Em tempos de paz, os cientistas estudaram o lançamento de satélites artificiais, ou “luas”, como eram originalmente chamados, para monitorar o clima e melhorar a comunicação intercontinental.
O governo dos Estados Unidos não investiu fortemente em foguetes durante a maior parte da década de 1950. Então, em 4 de outubro de 1957, a União Soviética chocou o mundo ao lançar o 1º satélite artificial do mundo, o Sputnik I. Milhões de norte-americanos temiam que a URSS logo lançasse uma chuva de mísseis nucleares sobre eles.
O presidente Dwight D. Eisenhower e seus assessores, no entanto, demonstraram pouca ansiedade diante dessa perspectiva. Eles acreditavam que os problemas dos Estados Unidos aqui na Terra eram mais urgentes do que aqueles que poderiam surgir do espaço.
A pressão política do líder da maioria no Senado, Lyndon B. Johnson, levou Eisenhower a reconsiderar sua posição. No final de 1958, o presidente republicano deu seu consentimento para a criação pelo Congresso da Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (Nasa). Essa nova agência então selecionou os primeiros 7 astronautas dos Estados Unidos, apresentando-os à nação em 1959.
Norte-americanos na Lua
A chegada de um novo e jovem chefe do Executivo, John F. Kennedy, reforçou o compromisso dos Estados Unidos com o espaço. Em setembro de 1962, o presidente desafiou publicamente a nação a colocar um astronauta na Lua antes de 1970. Para Kennedy, a magnitude de tal conquista científica e pública forneceria uma prova irrefutável ao mundo de que o modo de vida norte-americano era superior à vida por trás da Cortina de Ferro.
A morte prematura de JFK no outono de 1963 serviu apenas para fortalecer o compromisso da nação com o nobre objetivo do presidente morto.
Apenas 5 anos e meio depois, os astronautas Neil Armstrong e Buzz Aldrin caminharam na superfície lunar durante a missão Apollo 11. Para levá-los até lá, a Nasa gastou quase US$ 26 bilhões –o equivalente a US$ 338 bilhões hoje. A agência empregou centenas de cientistas e engenheiros e contratou milhares de trabalhadores de dezenas de empresas terceirizadas.
Mas quase no exato momento em que o triunfo supremo da Apollo 11 se desenrolava, o apoio público ao programa espacial tripulado se evaporou. A preocupação com a Guerra do Vietnã, a inflação e a persistente desigualdade social e política, bem como o tédio com as missões lunares, levou a maioria dos norte-americanos a se afastar do Cosmos.
Richard Nixon, que sucedeu Johnson no Salão Oval, cortou o orçamento da Nasa. Três das missões lunares restantes foram canceladas de forma abrupta e sem cerimônia. A Nasa teve que abandonar foguetes espetaculares, mas dispendiosos, como o Saturn V, em favor de veículos de lançamento mais baratos e versáteis.
A chegada do ônibus espacial
Ao contrário dos foguetes anteriores, a próxima geração de foguetes precisava se tornar quase totalmente reutilizável. O resultado: o desenvolvimento do ônibus espacial. A Nasa prometeu que o ônibus espacial seria lançado até 1977 e que, quando estivesse em pleno funcionamento, um deles entraria em órbita a cada duas semanas.
Essa visão nunca se concretizou. Quando o 1º ônibus espacial finalmente decolou em 1981, o projeto já havia ultrapassado em muito o orçamento previsto. Problemas com as placas térmicas necessárias para a reentrada persistiram.
No fim das contas, os ônibus espaciais nunca chegaram nem perto de decolar a cada duas semanas. Em vez disso, apenas 6 a 8 missões por ano se mostraram viáveis. O pior de tudo é que o programa acabaria sofrendo duas tragédias devastadoras.
Em 1986, o ônibus espacial Challenger explodiu 73 segundos após a decolagem. Em 2003, o Columbia –o 1º ônibus espacial a chegar ao espaço– se desintegrou ao reentrar na atmosfera sobre o Texas. No ano seguinte, o presidente George W. Bush anunciou que a frota restante de ônibus espaciais seria aposentada até 2011.
A aura de invencibilidade da Nasa e o fluxo inesgotável de financiamento há muito haviam desaparecido. O voo final do ônibus espacial serviu como um coda para os dias emocionantes das décadas de 1960 e 1970.
Os presidentes subsequentes falaram em missões a Marte e criaram uma Força Espacial, mas as antigas plataformas de lançamento da Apollo em Cabo Canaveral foram abandonadas, ou “colocadas em reserva”, como a Nasa chamou. Milhares de trabalhadores foram demitidos. A liderança no espaço passou para empresas privadas como a SpaceX, de Elon Musk e a Blue Origin, de Jeff Bezos.
Chegam as empresas privadas
Já em 2006, a Nasa começou a contratar a SpaceX para lançar suas cargas úteis e astronautas para a Estação Espacial Internacional (ISS). Em 2024, a SpaceX havia concretizado a visão não cumprida da Nasa, realizando lançamentos quase a cada quinzena.
Enquanto isso, o programa Artemis da Nasa planeja enviar uma missão tripulada para orbitar a Lua utilizando um sistema de lançamento desenvolvido pela agência. O programa, porém, continua anos atrasado em relação ao cronograma. Até o momento, o custo foi pelo menos 3 vezes maior do que o orçado originalmente.
Do outro lado do Pacífico, a China anunciou que colocará astronautas na Lua até 2030, com missões a Marte planejadas para depois disso. Na rival dos Estados Unidos no cenário mundial, governo, indústria e ciência atuam em conjunto. Em comparação com a China, o futuro dos Estados Unidos no espaço parece muito menos unificado, coordenado e determinado.
Um presidente dinâmico já motivou o governo dos EUA e seu povo a dar um “grande salto para a Humanidade”. Mas, desde aquele dia de julho de 1969, a liderança espacial passou gradualmente do governo para as mãos do setor privado, com o futuro dos voos espaciais americanos parecendo incerto.![]()
Michael Carrafiello é professor de história na Miami University.
Este texto foi publicado originalmente pela The Conversation às 10h15 de 19 de março de 2026 e adaptado para publicação pelo Poder360.
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