Março nos convida a olhar com mais atenção para os sinais que muitas mulheres aprenderam a suportar em silêncio
Por muito tempo, milhões de mulheres ouviram a mesma frase: “cólica é normal”. Mas a verdade é que dor intensa, incapacitante, que interfere no trabalho, no sono, no humor, na intimidade e na qualidade de vida nunca deve ser tratada como algo pequeno. Março, reconhecido como o mês de conscientização sobre a endometriose, é um convite importante para quebrar esse silêncio, ampliar o acesso à informação e encorajar diagnósticos mais precoces. A endometriose afeta cerca de 190 milhões de mulheres em idade reprodutiva no mundo e segue sendo uma condição muitas vezes subestimada, mesmo com impacto físico, emocional e social significativo.
A endometriose acontece quando um tecido semelhante ao revestimento interno do útero cresce fora dele, provocando inflamação, aderências e, em muitos casos, dor persistente. Os sintomas podem variar, mas entre os mais comuns estão cólicas menstruais intensas, dor pélvica crônica, dor durante a relação sexual, sangramento menstrual aumentado, desconforto ao evacuar ou urinar, inchaço abdominal, náusea, fadiga e infertilidade. Em algumas mulheres, os sintomas são discretos. Em outras, a doença altera completamente a rotina. O mais importante é entender que o corpo dá sinais, e que esses sinais merecem ser ouvidos.
Um dos maiores desafios da endometriose é justamente o atraso no diagnóstico. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o tempo médio para o diagnóstico pode variar entre 4 e 12 anos. Isso acontece porque a dor menstrual ainda é muito normalizada, e também porque os sintomas podem se confundir com outros problemas ginecológicos, intestinais ou urinários. Em fevereiro de 2026, o American College of Obstetricians and Gynecologists destacou novas orientações clínicas com foco em reduzir esse atraso, reforçando o uso criterioso da avaliação clínica e dos exames de imagem para melhorar o acesso ao cuidado mais cedo.
E aqui está uma mensagem que precisa ser repetida: sentir dor não faz de você “forte”, “dramática” ou “sensível demais”. Faz de você alguém que precisa ser avaliada com seriedade. Muitas mulheres, especialmente em rotinas intensas de trabalho, maternidade e vida de imigrante, aprendem a continuar funcionando apesar da dor. Mas sobreviver à dor não é o mesmo que estar bem. Quanto mais cedo a paciente é escutada e investigada, maiores são as chances de controlar sintomas, preservar qualidade de vida e tomar decisões com mais clareza sobre saúde e fertilidade.

Também é importante entender que a endometriose não afeta apenas o período menstrual. Ela pode impactar a saúde intestinal, urinária, sexual e emocional. A OMS destaca que a doença está associada a depressão, ansiedade, isolamento social e piora importante da qualidade de vida. A IUGA também chama atenção para a relação frequente entre endometriose, dor pélvica crônica, sintomas urinários e intestinais, além de disfunções do assoalho pélvico. Em outras palavras, não estamos falando apenas de uma cólica forte. Estamos falando de uma condição crônica que pode tocar diferentes áreas da vida da mulher.
Outro ponto que merece atenção é a fertilidade. A endometriose está associada à infertilidade, e a OMS informa que entre mulheres com infertilidade, cerca de 25% a 50% podem ter endometriose. Isso não significa que toda mulher com endometriose terá dificuldade para engravidar, mas significa, sim, que planejamento reprodutivo deve fazer parte da conversa. Quando a paciente deseja gestar, esse objetivo precisa ser considerado desde o início na escolha do tratamento. O cuidado ideal é sempre individualizado.
Muitas pacientes perguntam: existe prevenção? Existe cura? Com honestidade e responsabilidade, a resposta atual é que ainda não existe uma forma comprovada de prevenir a endometriose, e também não há uma cura definitiva reconhecida para a doença. O que existe, e faz toda a diferença, é conscientização, diagnóstico mais cedo e tratamento adequado para controlar sintomas, reduzir impactos de longo prazo e melhorar a qualidade de vida. Esse ponto é essencial, porque informação correta também é uma forma de cuidado.
Na prática, a investigação começa com escuta cuidadosa, histórico clínico detalhado, exame físico e, quando indicado, exames de imagem como o ultrassom. Em alguns casos, procedimentos cirúrgicos, especialmente a laparoscopia, podem ser necessários para confirmação diagnóstica. Ao mesmo tempo, o movimento mais recente na medicina tem buscado reduzir a espera por respostas, valorizando sinais clínicos e imagem para acelerar o início do cuidado, em vez de deixar a paciente anos sem orientação adequada.
O tratamento depende da intensidade dos sintomas, da extensão da doença, da idade da paciente e dos seus planos reprodutivos. As opções podem incluir medicamentos para dor, terapias hormonais e, em situações selecionadas, cirurgia. O NICHD ressalta que nem todo tratamento funciona da mesma forma para todas as mulheres, e que os sintomas podem retornar após a interrupção da terapia ou com o passar do tempo após um procedimento cirúrgico. A OMS também reforça a importância de abordagens multidisciplinares, incluindo fisioterapia e suporte à saúde mental, quando necessário. Isso é especialmente relevante em uma visão integrativa da saúde da mulher, porque tratar endometriose não é apenas controlar uma lesão, é cuidar da pessoa como um todo.
Neste mês de março, nossa mensagem simples e necessária: dor ncapacitante não deve ser romantizada, inimizada nem herdada omo “parte de ser mulher”. Se o seu iclo menstrual vem acompanhado de sofrimento, limitação, medo ou exaustão, vale investigar. Falar sobre endometriose salva tempo, preserva qualidade de vida e devolve às mulheres algo muito precioso: a chance de viver no próprio corpo com mais conforto, clareza e dignidade. E toda mulher merece isso.
Fontes oficiais consultadas: IUGA, World Health Organization (WHO), NICHD/ NIH, ACOG.

Dra. Stacey Pereira, MD
Obstetra, Ginecologista e Cirurgiã
Deborah Pereira, PA-C
Women’s Integrative OBGYN & Wellness
womensintegrativeobgyn.com
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