CÍRIO DE NAZARÉ: DEVOÇÃO QUE O POVO MANTÉM VIVA E RENOVA TODO 2º DOMINGO DE OUTUBRO

Historiadores falam sobre os diversos símbolos que integram a maior festividade religiosa do país e exaltam a participação do povo.

CÍRIO DE NAZARÉ: DEVOÇÃO QUE O POVO MANTÉM VIVA E RENOVA TODO 2º DOMINGO DE OUTUBRO

BELÉM (Par√°) - No século XIX, o C√≠rio de Nazaré j√° era chamado de "popular". Nos jornais da época se tem registro da refer√™ncia à "popular√≠ssima Festa de Nazaré", confirmando o car√°ter festivo da devo√ß√£o direta entre o povo e Nossa Senhora. Acompanhando esta história est√£o os s√≠mbolos que marcam o per√≠odo nazareno, incorporados pelos devotos.

Ali√°s, a festa do C√≠rio de Nazaré se tornou Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro por expressar elementos fundamentais da identidade do povo brasileiro, e cada s√≠mbolo integra um bonito ritual que culmina no segundo domingo de outubro.

Cartaz identifica uma comunidade

O cartaz do C√≠rio é uma das principais pe√ßas de divulga√ß√£o, para o qual existe lan√ßamento ainda no m√™s de maio e as cópias do cartaz come√ßam a ser distribu√≠dos para as fam√≠lias católicas.

O s√≠mbolo anuncia a chegada da Festa de Nazaré e, de acordo com o diretor da Faculdade de História da Universidade Federal do Par√°, M√°rcio Henrique Couto, os cartazes mais antigos eram ilustrados à m√£o, contendo, geralmente motivos ligados a milagres atribu√≠dos a Nossa Senhora de Nazaré ou imagens da igreja de Nazaré.

Mais tarde passaram a ser impresso e em 1992 passou a apresentar temas relacionados à evangeliza√ß√£o.

"Existem not√≠cias desses cartazes desde o século XIX, e os devotos costumam afixar os cartazes do C√≠rio em suas portas ou janelas e, em algumas resid√™ncias, é poss√≠vel ver cartazes de muitos anos diferentes", comenta Couto.

Para o professor de história, Diego Maia, o cartaz é o convite para o C√≠rio. "É uma identifica√ß√£o de que aquela fam√≠lia faz parte de uma comunidade e muitos colocam o cartaz que permanece ali o ano todo como s√≠mbolo de prote√ß√£o. Na casa da minha m√£e, da minha vó, o cartaz era colocado em um ano e retirado no outro C√≠rio. Era a substitui√ß√£o, renova√ß√£o da prote√ß√£o", conta o professor.

Atualmente s√£o confeccionados mais de 800 mil exemplares dos cartazes, que s√£o distribu√≠dos para devotos, empresas e outras institui√ß√Ķes.

Eles enfeitam paredes e vitrines de locais de trabalho e também ilustram camisetas de devotos e romeiros. Em 2021, o cartaz traz o tema "O Evangelho da fam√≠lia na casa de Maria".

A imagem merece lugar de destaque na casa do paraense

Os altares s√£o históricos e t√™m seus lugares reservados dentro de um lar católico. Ali encontra-se um ambiente prop√≠cio para alimentar o elo entre o devoto e a divindade.

No per√≠odo que antecede a festa até o C√≠rio, casas s√£o enfeitadas e os altares particulares t√™m em seu centro a m√£e da Igreja, a imagem da Virgem de Nazaré.

Costumeiramente, acompanhando os rituais oficiais, os fieis também fazem ou encomendam mantos para suas imagens particulares, e enfeitam os altares com flores, fitas coloridas e outros elementos da cultura amazônica.

Fitas carregam crenças

No catolicismo popular, quanto mais brilho, cores e ornamentos tiver a festa, se considera que a festa agradou o santo devotado.

Registros das fitas coloridas existem h√° muito tempo, como mostra a revisita à história do professor M√°rcio.

"Parecia que a santa tinha vindo da Fran√ßa, pois o seu todo dava a impress√£o de uma grande boneca de vitrina. Duas longas fitas, uma verde, outra vermelha, pendiam das vestes da imagem até o ch√£o. Centenas de pessoas acotovelavam-se em torno do altar para, de joelhos, beijar essas fitas!", é o que diz o relato do viajante protestante Daniel Parish Kidder, em 1839, ao visitar a igreja de Nazaré.

O professor comenta que o coment√°rio mostra que enfeitar a imagem com fitas j√° era comum na primeira metade do século XIX.

"Existe uma liga√ß√£o simbólica e direta, sem intermedi√°rios, entre devotos e os santos no catolicismo popular brasileiro. E como express√£o dessa rela√ß√£o direta, os devotos costumam confeccionar mantos para vestir a imagem, envolvem-na em fitas coloridas e decorativas. Muitas vezes, as fitas s√£o fixadas nas grades situadas em frente à Igreja de Nazaré, na condi√ß√£o de ex-votos, s√≠mbolos de promessas alcan√ßadas. As fitas d√£o um colorido especial à devo√ß√£o e est√£o presentes em outras festas de santo espalhadas pelo Brasil", explica Couto.

Além de enfeitar, as fitas carregam a cren√ßa de que se voc√™ pedir com fé e der nós nas fitas, eles desamarrar√£o sozinhos como afirmando que o pedido foi realizado pela Virgem de Nazaré.

"O fato de voc√™ acreditar que dando os tr√™s nós e eles se desfazendo por si próprios, os desejos ser√£o realizados, conversa com a identidade, com a devo√ß√£o, com a promessa, com a ideia de se proteger que existe nessa atmosfera do C√≠rio", completa Diego Maia.

Tipos de promessas mudam de acordo com o contexto de vida da população

As promessas est√£o diretamente associadas às origens da devo√ß√£o aos santos. É uma caracter√≠stica do tipo de catolicismo que se constituiu no Brasil.

No século XIX, as promessas eram muito ligadas à vida mar√≠tima e fluvial, e por este motivo, se viam muitas cópias de embarca√ß√Ķes conduzidas na prociss√£o.

Ao longo do tempo, os ex-votos, ou seja, os objetos que representam a promessa paga e os milagres foram se diversificando. Hoje é poss√≠vel ver promesseiros transportando livros na cabe√ßa, agradecendo a aprova√ß√£o no vestibular, outros pagam promessas por terem conseguido comprar um automóvel, a casa própria ou por terem alcan√ßado a cura de um animal doméstico.

"E, em todos as épocas, s√£o muitos os ex-votos que simbolizam o milagre de ter sido curado de determinada doen√ßa. Tal é a satisfa√ß√£o dos devotos, que deixar de pagar a promessa est√° fora de cogita√ß√£o, pois isso representaria a quebra de um acordo com Nossa Senhora de Nazaré, fato que poderia motivar algum tipo de puni√ß√£o ou atrair alguma desgra√ßa para a vida do promesseiro", relata M√°rcio Henrique.

Corda se tornou elo entre promesseiros e a imagem de Nossa Senhora

A introdu√ß√£o da corda na prociss√£o do C√≠rio tem sido tradicionalmente explicada a partir do atolamento da berlinda próximo ao Ver-o-Peso em 1885, contudo, o professor M√°rcio Henrique diz que as fontes históricas j√° haviam registrado a corda na prociss√£o antes desta data.

"Segundo o historiador Ernesto Cruz, a berlinda come√ßou a ser puxada pelo povo no C√≠rio de 11 de outubro de 1868. A ideia de atrelar a corda à berlinda teria sido uma iniciativa de diretoria da época, a fim de que o povo tivesse maior contato com a santa de sua devo√ß√£o", cita Couto.

Ele cita ainda a matéria publicada no jornal Di√°rio de Belém, em 13 de outubro de 1885, que dizia que "h√° cerca de cinco anos que a berlinda é puxada pelos devotos, visto que o tempo n√£o soube respeitar os arreios da parelha destinada para esse servi√ßo, nem as diretorias transatas tiveram tempo ou posses para mandar vir outros", mostrando ent√£o que a corda existe na prociss√£o desde 1880.

No mesmo recorte histórico, a matéria informa que naquele ano (1885), a diretoria da festa fez um esfor√ßo para garantir que a berlinda fosse novamente puxada por uma parelha de animais. "O povoléu, porém, entendeu que era uma profana√ß√£o consentir que a berlinda fosse puxada por cavalos √°rabes quando ali estavam as devotas para os substituir como nos demais anos".

Um ano antes, em 1879, matéria do O Liberal do Par√°, afirmava que "entre nós a imagem da SS. Virgem vai sozinha em sua berlinda, é puxada por gente e n√£o por mulas".

Com o passar dos anos, pagar promessa na corda significa o sacrif√≠cio extremo e é um lugar que os devotos fazem quest√£o de manter nas prociss√Ķes do segundo final de semana de outubro.

"No século XIX e em parte do século XX, a corda era vista pelos padres e por muitos cronistas como o espa√ßo da desordem, da promiscuidade, como s√≠mbolo de anarquia que comprometia a pretendida imagem civilizada que se desejava para a prociss√£o. Na verdade, a suposta anarquia da corda era uma express√£o da espontaneidade popular, da forma peculiar como os devotos expressam sua gratid√£o pelas gra√ßas alcan√ßadas de Nossa Senhora de Nazaré", diz M√°rcio Couto.

Para o professor Diego Maia, a corda expressa o sentimento de devo√ß√£o do povo paraense. "A religiosidade é basicamente isso, manifesta√ß√£o popular, o que o povo est√° sentindo, e por conta disto ela precisou ser engrossada, nem sempre a corda foi dessa espessura que a gente conhece hoje. Ela precisou ser engrossada porque a vontade, a for√ßa, a devo√ß√£o foi crescendo ao longo do tempo. Religiosidade é isso, é a manifesta√ß√£o popular. Religi√£o existe para formalizar os aspectos da manifesta√ß√£o popular e é necess√°rio adapta√ß√£o e a Igreja torna esses s√≠mbolos populares parte de seu processo institucional", completa.

Entre a retirada e a reintegra√ß√£o da corda ao longo dos anos, hoje o s√≠mbolo é um dos principais elos de liga√ß√£o entre os devotos e a imagem de Nossa Senhora de Nazaré.

Se C√≠rio é festa, tem que ter roupa nova

De acordo com Márcio Henrique Couto, o primeiro Círio surgiu acompanhado por uma feira de venda de produtos regionais, instituída pelo então Governador Souza Coutinho.

Em matérias de jornais do século XIX eram comuns as propagandas das lojas anunciando produtos para a Festa de Nazaré, especialmente roupas e cal√ßados.

"Assim, a "roupa nova para o C√≠rio" é uma pr√°tica antiga, ainda cultivada por muitas fam√≠lias. C√≠rio é festa e festa geralmente implica a ideia de uma prepara√ß√£o especial, que inclui uma vestimenta nova", explica o professor.

C√≠rio só é C√≠rio porque é do povo

Todos esses elementos e outros fazem do C√≠rio de Nazaré ser o domingo mais esperado do ano para o povo católico paraense. A participa√ß√£o popular é que faz da festa ser t√£o apreciada e comentada.

"A espontaneidade, o colorido, o burburinho popular, o car√°ter festivo da devo√ß√£o, a rela√ß√£o direta entre devoto e santa de sua devo√ß√£o, s√£o elementos fundamentais do C√≠rio de Nazaré. O C√≠rio sempre foi uma festa popular, uma festa do povo. Sem padres, j√° houve C√≠rio. Sem o povo, n√£o. O C√≠rio é do povo!", completa Couto.