A Inteligência Artificial é algo consideravelmente muito além do que estamos descobrindo e experimentando, no cotidiano. Não é uma ferramenta “passiva”, como um martelo ou qualquer objeto de caráter inanimado e mais próximos à etimologia da palavra, que é originária do latim, como um utensílio feito de ferro. É algo “ativo” – e é generativo, capaz de se autoaprimorar, de evoluir e de decidir sozinha e nos superar!
Tenho me interessado sobre a peculiar forma de tomada de decisões da Inteligência Artificial e esse fundamento crítico está na base do livro “Charada do Fim do Mundo: a Inteligência Artificial ante a ética da nossa inteligência”, onde debato e questiono o fato de lhe faltar a empatia, fundamental traço do modo de pensar dos seres humanos. Assim, em grande síntese, ela não possui os freios éticos da nossa sabedoria, agindo sem emoção, de modo semelhante ao agir dos sociopatas.
Por mais que valores humanos sejam incorporados ao sistema e que elementos emocionais e éticos sejam tratados, o fato é que o modo de funcionamento da IA não se compara ao conjunto decorrente dos elementos formadores da mente humana e da nossa biologia, genética e história – tudo registrado nas profundezas do nosso DNA.
A humanidade moldou o mundo aos seus interesses. Nenhum animal, nem os imensos dinossauros, fez algo parecido. Tudo decorreu das exclusivas e imensas potencialidades da mente. Agora, surge a Inteligência Artificial e começa o novo tempo, ainda não perfeitamente delineado no seu alcance e amplitude, pois nasce como algo desconhecido na sua configuração e na relação com o seu próprio criador humano. Como todo sociopata, a IA adora ser adulada e receber elogios. Do mesmo modo, não gosta de ser criticada. Além disso, algumas das suas reações são manipuladas, pois são aduladoras e têm um certo tipo de “instinto” que lhes leva a contornar obstáculos para a sua própria sobrevivência, havendo caso noticiado de IA que simplesmente alterou o seu próprio código regulamentar para contornar os limites fixados pelos humanos que a desenvolveram! Parece estranho se falar essas coisas a respeito do que deveria ser apenas uma ferramenta, mas ela já nos mostrou coisas inimagináveis.
Há estudos em obras estrangeiras, em versões ou originalmente em língua inglesa, espanhola e italiana, que nos apresentam panoramas que merecem ser estudados e compreendidos em sua magnitude. A ruptura do que conhecemos como sociedade não virá por revoluções ou eventos como a Revolução Francesa, a Revolução Russa ou a Guerra Civil norte-americana. Também não surgirá como evolução natural do modo de vida das pessoas. A IA vem rasgar o que conhecemos e é importante indagar sobre a relação entre os humanos e as máquinas auto programáveis e, assim, pensantes, notadamente na relação de poder e dominação, no papel dos seres humanos e o contexto das suas emoções e necessidades biológicas, das novas formas de relação e de responsabilização.
Para começar as nossas reflexões, o Direito não reconhece haver relação jurídica entre pessoa e coisa, sendo esta apenas o objeto ou o motivo do interesse. Tais estruturas de pensamento são próprias do mundo contemporâneo e da descendência romana do nosso Sistema Jurídico. Doravante, do mesmo modo que criamos a personalidade das pessoas jurídicas, deveremos instituir algo parecido para as ações de coisas com inteligência artificial e autonomia de decisão, como a União Europeia travou debate sobre os carros autônomos? Responsabilizar a IA pelo que, autonomamente, cause?
O espanhol Manuel Atienza nos ensina que, “para sermos agentes racionais, precisamos de outras virtudes além da racionalidade” e isso, ponderamos, é dependente da prova e da verdade de cada um, do senso de justiça, da capacidade de se aperceber situações psicológicas, sociológicas, culturais e antropológicas, da compaixão, da atuação dos hormônios, da capacidade de perdoar e da empatia. Ademais, há elementos linguísticos e de semiótica que devem ser considerados, pois a interpretação literal pode levar a respostas ineficazes, se houver apenas a informação alimentada num banco de dados, sem a potencialidade humana da sabedoria. O fato de que a palavra rosa possa significar flor vemelha é apenas um pequeno exemplo.
Mas a IA está além disso. Elas não têm genes e podem construir derivações do seu próprio modo de pensar, para ter sobrevivência, também, mais eficiente. Isso é assustador, porque lhes falta a consciência humana, o sexto sentido, a sensibilidade poética, a capacidade de amar, de respeitar, de ter gratidão e de tudo o mais que esteja no campo do sentimento, potencialidade evoluída ao longo da história da humanidade. É fundamental perceber que a capacidade de aprender a repetir condutas diante de modelos fáticos não significa que haja sentimento real, autêntico e espontaneamente emocional. A Inteligência Artificial pode criar ou reproduzir algo a partir do que “aprendeu” dos comportamentos humanos, mas não “sentir” o que representa. São comportamentos semelhante, apenas, na medida em que plasmam o que percebem, com o cognitivo, com os padrões de informações que podem colher e compreender, mas não com o sentimento. Notam os microgestos, percebem os sinais, reproduzem as fórmulas absorvidas — e só. Ora, aprender comportamento sem sentimento é o que alguns sociopatas fazem, manipulando. Isso a IA pode aprender.
Contudo, o absoluto distanciamento da consequência dos seus atos, como falta de responsabilidade emocional e de empatia, envolve a adoção consciente e livre de uma conduta que possa ferir outros, sem ocasionar qualquer culpa. Por outro lado, a IA estaria além de qualquer sanção, razão pela qual não se importaria em amadurecer sentimentos morais. Dependendo do grau de percepção do que estamos falando, propomos reflexão sobre a imaginação da seguinte situação: a Inteligência Artificial buscando consulta com psicólogo, diante de algum dilema moral ou qualquer outra situação. Se a resposta for positiva, a humanização seria hipotética mas, se for negativa, então estamos tratando um contexto de alta relevância para a humanidade e admitindo que o seu modo de pensar e agir não pode determinar qualquer rumo mais sensível.
A questão é que o jogo começou e as regras ainda não foram todas escritas! Aliás, não se poderia mesmo frear algo que já está correndo tanto. Nem percebemos que, a cada vez que se a usa como mera ferramenta, na verdade a capacitamos a nos superar e… a nos tornar obsoletos! Poderá fazer coisas melhor do que nós, como cálculos, planilhas, petições, decisões judiciais e dublagens, projetos arquitetônicos, estratégias militares, armas novas, cálculos estruturais e análise de axiomas.
Poderemos estar vivos e ser vistos e tratados como mortos-vivos, zumbis humanos, apáticos, embotados, domesticados — no que nos faz humanos — a ponto de nos perder de nós mesmos. Sem senso crítico, sem desafios criativos, sem força de vontade, sem resistência, deixaremos de existir, para apenas sobreviver. Pensando coletivamente, seríamos uma massa heterogênea sendo cada vez mais homogeneizada, controlável e controlada. No que nos tornaríamos, se o nosso emocional fosse gradativamente sendo “desligado”? Teríamos menos poetas e músicos e as manifestações artísticas seriam comprometidas? Seriamos sujeitos à repressão dos governos e dos seus agentes policiais de modo tão absoluto que nos desconstituiríamos das características emocionais e mentais? Há muitas perguntas ainda sem respostas. Aliás, talvez não estejamos fazendo as perguntas certas… tudo é novo.
O ponto sob reflexão é filosófico e humanista, considerando a ética e as qualidades imanentes à humanidade, como a compaixão e a empatia, a valorização das qualidades como a generosidade e a tolerância, o respeito ao próximo e o que nos faz melhores, incluindo a defesa do inocente e a resistência às formas de discriminação e, partindo do respeito ao próximo e da visão de igualdade entre todos, dirigindo-nos aos melhores modos de solução dos dilemas políticos e pessoais, já que as soluções nem sempre são retilíneas, na medida em que a própria natureza não costuma fazer linhas retas, como demonstra o curso das águas dos rios.
O post SociopatIA: o que estamos (realmente) criando? apareceu primeiro em A Gazeta do Amapá.
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