Por Hanaa’ Tameez
O canal Under the Desk News (Notícias de Debaixo da Mesa) começou com vídeos explicativos no TikTok durante a pandemia. Seis anos depois, V Spehar se tornou uma das vozes jornalísticas mais confiáveis da internet.
Foi a repórter de tecnologia e cultura Taylor Lorenz quem primeiro disse a Vitus “V” Spehar para se considerar jornalista. Era 2022 e Spehar —que hoje tem 43 anos e é mais conhecido por seus vídeos explicativos no perfil @UndertheDeskNews— já estava há 2 anos explicando as notícias on-line. Spehar estava entrevistando Lorenz para seu podcast e, de início, desdenhou da ideia. “Não sou não, sou um tiktoker”, disse Spehar na época.
“Ela reagiu tipo: ‘Não, e na verdade é irresponsável da sua parte dizer isso. O que você está fazendo é jornalismo e você precisa entender a ética e as expectativas. O público acha que você é jornalista, então você precisa agir como um’”, relembra Spehar.
Os vídeos de Spehar —que cobrem política, políticas públicas e cultura dos EUA— são informais e fáceis de assistir. Usando seus óculos marcantes e, às vezes, um terno, Spehar não foge de usar músicas que estão bombando, atuar ou fazer uma dancinha para ajudar os espectadores a entender os fatos (como a demissão da chefe do Departamento de Segurança Interna, Kristi Noem).
Hoje, Spehar é um dos criadores de notícias mais bem-sucedidos do setor, com quase 5 milhões de seguidores entre TikTok e Instagram. Além de postar vídeos diários com o resumo das notícias, Spehar também faz transmissões ao vivo no YouTube, envia uma newsletter no Substack para mais de 184 mil assinantes, entrevista políticos e aparece em canais de notícias como CNN e MSNBC.
Spehar também foi pesquisador bolsista (fellow) em 2025 no Centro Shorenstein de Mídia, Política e Políticas Públicas da Harvard Kennedy School.
Eu bati um papo com Spehar em fevereiro sobre por que começou a reportar debaixo de uma escrivaninha, como consegue se manter atualizado no ciclo de notícias e o lado comercial de ser um criador de conteúdo jornalístico. Nossa conversa foi editada para fins de extensão e clareza.
Tameez: Por que você começou a criar vídeos de notícias?
Spehar: Antes de ser criadora de notícias, eu trabalhei para a Fundação James Beard como diretora de impacto e empreendedorismo. Eu ensinava as pessoas a abrir pequenos negócios, a fazer branding (gestão de marca), mas também trabalhava na criação de sistemas alimentares sustentáveis e na descoberta de formas como a comida foi apagada pelo processo de colonialismo americano e assimilação forçada.
Eu sou muito boa em explicar coisas para as pessoas. A pandemia chegou e a vida de muita gente simplesmente parou. Muitos dos meus amigos eram chefs e estavam fazendo vídeos cozinhando. Então comecei a fazer vídeos de culinária por diversão. Isso virou vídeos de culinária enquanto eu explicava como solicitar empréstimos do Programa de Proteção ao Salário e subsídios para espaços culturais fechados.
Em 6 de janeiro de 2021, eu estava usando um terno da cintura para cima e shorts da Nike embaixo porque estava em uma reunião com o Departamento de Assuntos de Veteranos, pelo Zoom, sobre os programas alimentares que estávamos fazendo para eles. Vi a insurreição acontecendo na CNN ao fundo. Eu me enfiei debaixo da mesa e achei que era uma forma engraçada de lidar com uma situação difícil, como se eu estivesse no Capitólio escondida sob a mesa tentando falar com Mike Pence sobre invocar a 25ª Emenda para chamar a Guarda Nacional.
Isso viralizou. Meu amigo Randy disse: “Ei, você precisa voltar para debaixo da mesa e contar às pessoas o que está acontecendo agora.” E foi assim que o Under the Desk News começou. Naquela época, o TikTok era bem exagerado. Tudo era bobo e chamativo. Não sei se foi meu diploma de graduação em teatro falando mais alto, mas pensei: “Vamos fazer isso. Vai ser divertido.”
Tameez: Como você fez a transição para trabalhar como criador de notícias em tempo integral? Você tinha experiência prévia em jornalismo ou mídia?
Spehar: Eu frequentemente atuava como porta-voz da Fundação James Beard, então eu era bem treinada para lidar com a mídia, mas não tinha interesse em jornalismo e nem sou uma boa escritora. Eu sou boa em falar. Tenho dislexia, então isso não era algo em que eu tentava gastar muito tempo.
Sou millennial e não sabia que isso era um trabalho. Nunca pensei: “Ah, sou criadora de conteúdo em tempo integral.” Essa linguagem nem me ocorreu. Eu ainda trabalhava com comida, mas chegou um momento em que comecei a ter oportunidades e a ganhar dinheiro com os vídeos.
Tameez: Por que esse trabalho é importante agora?
Spehar: No geral, as pessoas ficaram muito curiosas durante a pandemia. Aquela experiência horrível nos mudou. As pessoas entenderam as implicações da política porque estavam vivendo isso. Depois disso, elas passaram a se interessar muito mais por notícias, cidadania, política e governos locais. Por isso acho esse trabalho importante sob a perspectiva de novas mídias e jornalismo cidadão.
O TikTok tirou mais gente de empregos sem perspectiva do que qualquer outra plataforma na Terra. Para muita gente, ficar famoso no TikTok ou ganhar visibilidade ajudou a conseguir empregos sérios ou abrir negócios reais. Acho isso muito poderoso.
Tameez: Como você define seu nicho?
Spehar: Sempre vou me interessar por política e cultura dos Estados Unidos. Falo disso a partir da política norte-americana envolvida. Se falarmos de Israel-Palestina, não tenho muita experiência em reportar o que acontece entre os dois, mas posso explicar a política norte-americana em relação a isso. O mesmo vale para a forma como cobrimos a guerra no Irã. É essa parte que sei comunicar. Quero que as pessoas continuem curiosas e encontrem o lado bom das coisas.
Tameez: Explique seu dia e fluxo de trabalho, da ideia ao post.
Spehar: Eu não durmo muito bem. Geralmente vou dormir às 21h, acordo à 1h e às 3h, olho o celular para ver se aconteceu algo na Europa ou em outro lugar. Às 6h abro meu aplicativo de anotações onde mantenho uma lista do que está acontecendo. Toda noite sei que vou fazer notícias. Às 19h posto um vídeo: “É segunda à noite, aqui está o que aconteceu.” Passei o dia inteiro reunindo pensamentos e coisas que me enviaram.
Faço o Substack com um pesquisador chamado , que contratei. Escrevo as edições de segunda no domingo. Terça é para investigação aprofundada. Quinta fazemos uma história apenas sobre temas LGBTQIA+, escrita por uma freelancer chamada . Fora isso, posto notas quando necessário. O Substack é quase automático porque tenho ajuda.
O YouTube é muito mais difícil do que TikTok e Instagram, onde posso gravar um vídeo rapidamente. Temos um novo programa no YouTube que vamos retomar. Lá precisamos roteirizar, planejar, convidar e agendar convidados. É mais complicado.
Tameez: Você roteiriza seus vídeos?
Spehar: Tudo é improvisado. Tenho uma lista de histórias que quero falar e anoto fatos específicos sobre para memorizar. No YouTube uso teleprompter, mas por causa da minha dislexia é difícil para mim ler direto.
Tameez: Quero ouvir mais sobre suas reportagens originais.
Spehar: Nos 2 primeiros anos do Under the Desk eu me perguntava, você é um jornalista? Não é? Você é um criador de conteúdo? Eu era muito feliz dizendo que era tiktoker até ficar irresponsável esconder isso quando as pessoas esperavam jornalismo checado. A bolsa Shorenstein me ajudou a entender fontes originais e conviver com jornalistas.
Antes disso, quem disse “Não, você é jornalista” foi Taylor Lorenz. Foi no começo, e eu estava fazendo o podcast V Interesting, que também tinha reportagens originais. Entrevistei a Taylor sobre a internet, e ela disse: “Bom, você é jornalista.” E eu respondi: “Não, não sou. Sou uma tiktoker.” E ela disse: “Não, e na verdade é irresponsável você dizer isso, porque o que você está fazendo é jornalismo e você precisa entender a ética e a expectativa. O público acha que você é jornalista, então você precisa ser.”
Isso foi um grande impulso de confiança, mas também um chamado à responsabilidade. Tenho tanto respeito pela indústria de notícias e pelas pessoas que fazem esse trabalho, e eu não achava que era qualificada para ser uma delas. E ela disse: “Não, você é isso.” [Ela me disse que eu preciso] publicar minha ética, minhas finanças, e entender que o que as pessoas esperam de mim é jornalismo. Isso significa transparência sobre como sou paga, para quem trabalho, quem são meus parceiros, quais são minhas fontes. Todo esse tipo de coisa.
Tameez: Como você encontra informações para os seus vídeos?
Spehar: Eu geralmente monitoro cerca de uma dúzia de grandes organizações de mídia, desde Rolling Stone e Teen Vogue até CNN, Politico, New York Times, The Washington Post e Axios. Também trabalho com a Ground News. Sou parceira deles, então faço trabalhos pagos promovendo o aplicativo. Não estou dizendo isso só porque sou paga por eles, mas realmente considero o recurso Blindspot útil; ele conhece meu algoritmo, então me mostra histórias que eu normalmente não veria. Geralmente são matérias da direita, que muitas vezes podem ser desinformação sobre a qual eu preciso falar.
Também consulto jornais locais para ver sobre o que estão escrevendo, o que está nas capas. É assim que acabamos fazendo as pessoas se sentirem realmente vistas. Mesmo tendo uma audiência nacional, posso encontrar algo em algum lugar aleatório de Oklahoma que seja muito interessante —e isso pode virar uma história maior. Também recebo dicas das pessoas. Recebo centenas de mensagens diretas por dia. Às vezes há algo útil ali. Também olho o Google Trends pouco antes de fazer as notícias para ver se há algo de que as pessoas estão falando e que eu perdi.
Tameez: Como você faz checagem de fatos?
Spehar: Às vezes, consigo falar diretamente com as pessoas. Nos últimos 5 anos, construí relacionamentos sólidos com certos membros do Congresso. Se eu precisar checar alguma informação sobre o caso Epstein, provavelmente consigo entrar em contato com os gabinetes de Ro Khanna (deputado da Califórnia) ou Summer Lee (deputada da Pensilvânia) de forma bem rápida.
Fora isso, eu busco a fonte original. Se for um processo na Suprema Corte ou seus pareceres, eu consulto o documento. Posso olhar o material da Casa Branca. Geralmente, tento ler matérias de 2 ou 3 grandes veículos de comunicação que escreveram sobre o assunto e tento entender qual é a história por trás dos diferentes ângulos que eles deram.
Nós não fazemos notícias de última hora (breaking news). Acho que isso é uma grande vantagem para mim, a menos que eu realmente domine o assunto, porque assim tenho tempo de ver a notícia se desenrolar em vez de tentar começar a reportar do zero. Não tenho problema nenhum em dizer que a grande mídia reportou algo. Alguns outros criadores de notícias não querem fazer isso porque toda a marca deles é baseada na ideia de que a mídia tradicional está mentindo para você —e ela não está.
Tameez: Você usa inteligência artificial?
Spehar: Eu não uso. Sou um elder millennial e nunca nem criei uma conta no ChatGPT. A única vez que a IA aparece na minha vida é no Substack. Quando eu faço uma live por lá, a plataforma corta os vídeos e posta no YouTube automaticamente. Às vezes, eu olho o resumo de IA do Google só para ver o quanto ele está errado.
Por causa da minha dislexia, aprendi a fazer leitura dinâmica. O sistema basicamente ensina você a adivinhar quais são as palavras em vez de lê-las letra por letra, e assim você consegue pegar a ideia geral (get the gist) do que está acontecendo. Mais tarde na vida, tive que aprender a ler “normalmente” para conseguir ler em voz alta e usar coisas tipo teleprompter.
Tameez: Como você corrige erros?
Spehar: Eu simplesmente digo na lata: ‘Gente, a gente fez merda aqui’. Apago o vídeo e pronto, simples assim. Algumas pessoas têm dificuldade com isso. Elas não querem fazer, ou talvez tenham ganhado muito dinheiro com o primeiro vídeo e só uma coisinha pequena estava errada nele. Isso custa caro, mas vai te custar muito mais se você não resolver o problema logo de cara.
Tameez: Lembra da primeira vez que você teve que fazer isso?
Spehar: Sim. Teve um cara em Chicago que estava reportando sobre homens que desapareciam depois de sair para bares. Eles iam parar no rio, e ele estava cobrindo isso. O sujeito era muito transparente e tinha muitas fontes boas que dava para checar, e aí não sei o que aconteceu. Ele ficou meio estranho e começou a dizer coisas que não eram mais tão confiáveis. Mas eu tinha falado para as pessoas seguirem ele enquanto ele falava sobre esses rapazes sumindo, porque achei interessante e ele estava realmente acompanhando o caso. Ele disse que [um investigador] tinha se reunido com ele… e depois descobriu-se que era mentira. Ele tinha se precipitado na história.
Eu reagi tipo: ‘Olha, eu sei que falei para seguirem esse cara e acho que o que ele estava fazendo no começo era ótimo. Estou muito preocupade com as vítimas, esses homens e suas famílias, pelo que passaram. Mas acho que ele claramente se perdeu no personagem e não endosso mais o trabalho dele‘. Eu fui bastante criticade por isso, mas no fim das contas ficou tudo bem.
Teve outra vez que eu disse: ‘Pela primeira vez na história, estamos perdendo direitos em vez de ganhá-los’, quando a decisão Roe v. Wade foi anulada [direito ao aborto nos EUA]. Fui rapidamente corrigide por historiadores negros, o pessoal que disse: ‘Não, o caso Dred Scott te mostra que esta não é a primeira vez que americanos perdem direitos’.
Eu simplesmente não parei para pensar. Pedi desculpas, corrigi, disse que foi um momento de ignorância baseado no meu próprio luto por Roe v. Wade e na minha perspectiva como mulher. Eu deveria ter sido mais cuidadose com as minhas palavras, e sinto muito por isso.”
Tameez: Quem é seu público?
Spehar: O grupo demográfico que mais cresce no meu canal é, sem dúvida, o de millennials e pessoas mais velhas que talvez nunca tenham votado ou se envolvido com política antes. Muita gente da Geração Z me chama de “Titia das Notícias” (News Auntie); eles não são da minha faixa etária, mas ainda assim confiam em mim.
O público é cerca de 70% feminino e 30% masculino. Eu costumava ter um público conservador muito maior. Não tenho mais. Nós fazemos muitas pesquisas com a audiência. Tenho um número bem considerável de seguidores de famílias militares, o que eu valorizo e acho interessante. Eu passei um período incorporado (embedded) ao Departamento de Defesa, e acho que isso contribuiu, porque produzi muito conteúdo sobre o órgão.
Tameez: Como foi sua participação com o Departamento de Defesa (DoD) durante a administração Biden?
Spehar: Meu pai era engenheiro da Sikorsky Aircraft e trabalhava em uma função especial para o Departamento de Defesa (DoD). Tenho muitos amigos e familiares que são militares ou veteranos. É algo que me interessa. [Essa imersão] se chama Joint Civilian Orientation Conference (Conferência Conjunta de Orientação para Civis), onde você fica incorporado às Forças Armadas por cerca de uma semana. Você visita várias bases diferentes, conversa com militares da ativa e aprende sobre as prioridades. No meu público, alguns ficaram desanimados por eu ter feito isso, porque acharam que eu faria propaganda militar, mas eu não fiz.
Tameez: Então você avisou ao seu público com antecedência que ia fazer isso?
Spehar: Sim! Fizemos uma contagem regressiva. Fiz vídeos enquanto estava em campo. As coisas que me importavam eram os programas e serviços sociais que o secretário de Defesa, Lloyd Austin, estava planejando. Não é propaganda se você está falando sobre como tratamos as famílias militares. Elas não gostaram que eu atirei com armas e tudo mais. Mas, você sabe, dancei conforme a música.
Tameez: Você acha que faria isso de novo se a oportunidade surgisse sob o “Departamento de Guerra”?
Spehar: Eu não vou assinar um papel dizendo que só vou reportar o que [o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth] disser. Não confio que este “Departamento de Guerra” vá me manter em segurança da mesma forma que senti sob a gestão de Austin. Com Austin, senti que havia muita transparência. Não sinto o mesmo com Hegseth. Por essas razões, eu não faria. Não tenho ressalvas quanto ao profissionalismo dos militares dos Estados Unidos. Eu só não confio no Pete.
Não acho que Pete Hegseth tenha provado que se importa com qualquer outra pessoa além dos seus próprios ideais. Também não quero meter ninguém em encrenca por falar comigo. Não acho que ele valorize o jornalismo, as mulheres, e muito menos pessoas não binárias. No momento, não acho que seja uma boa escolha. Eu também não participei daquela iniciativa para criadores que tentaram fazer com o corpo de imprensa da Casa Branca, porque ali você não entra como jornalista ou criador independente. Você entra como convidado do secretário de Imprensa.
Tameez: Como você interage com o público?
Spehar: Pelas DMs, pelos comentários. Eu também assisto muito ao conteúdo de outras pessoas e comento nos vídeos delas. Também gosto quando as pessoas vêm falar comigo pessoalmente. Se estou na rua, as pessoas simplesmente conversam comigo sobre o que estão vendo.
Tameez: Qual é a sensação?
Spehar: É uma sensação legal em Rochester, Nova York [onde eu moro], porque eu sou apenas o seu amigo e vizinho. Quando estou em Nova York ou em D.C., é um pouco mais “espetáculo”. Mas, quando estou em casa, sou só eu comprando queijo no Wegmans [supermercado local], assim como as outras pessoas. Você se sente simplesmente parte do mundo. É bom.
Tameez: Como a venda do TikTok mudou seu trabalho e seu negócio?
Spehar: Essa bagunça do TikTok tem sido um problema há anos e, no geral, acho que estou menos preocupado com isso. Acho que, com todo esse processo, o TikTok deixou de ser divertido e perdeu muito da confiança. As pessoas não sabem se a plataforma ainda vai estar lá no dia seguinte. Eu vou fazer TikToks até o dia que eu morrer, simplesmente porque foi onde comecei e é onde o meu pessoal ainda está.
Tameez: Como a sua relação com as redes sociais e o consumo de informação mudou desde que você começou a fazer vídeos?
Spehar: Eu costumava me preocupar muito mais em tentar controlar a informação que as pessoas recebiam ou deixavam de receber, e em tentar expor (call out) contas específicas que estavam fazendo um trabalho ruim. Tive que abrir mão disso porque as pessoas vão assistir ao que elas quiserem. Houve um período em que eu me sentia responsável pela internet inteira, mas não me sinto mais assim.
Tameez: Criadores favoritos?
Spehar: Eu gosto muito do trabalho que o SCOTUSBlog faz. Acho que eles são fenomenais em tudo o que envolve a Suprema Corte (SCOTUS). Gosto muito da Alicia the Luncheon Lawyer; ela é uma advogada em Atlanta e se comunica super bem.
Monty Mader é outra pessoa nova para mim que estou seguindo. Daniella the Knitting Cult Lady é outra que eu gosto; ela é ex-militar. O perfil @popsmartmedia cobre como o cinema e a televisão influenciam a política americana. O The Tennessee Holler é ótimo. A Betches também. O Amanda’s Mild Takes é excelente. A Sharon Says So fala sobre civismo e história. Eu não acompanho muitos agregadores de notícias; prefiro acompanhar especialistas em áreas específicas.
Tameez: Assinaturas pagas?
Spehar: Eu ainda gosto de ler revistas. Recebo a edição impressa da Rolling Stone na minha casa. Recebo a Vanity Fair, a Variety, a The New Yorker. Eu assino o jornal local e gosto de largar o celular e apenas ler o papel. Além disso, uso o Newspapers.com porque dá para consultar edições antigas.
Eu pago pelo The Daily Beast. Também assinamos a The Atlantic. Eu assino um monte de jornais locais, porque custam cerca de US$ 4 por ano na versão digital. Eu não conseguiria nem citar todos agora. Também assino muitos Substacks.
Tameez: Quanto você ganha?
Spehar: Muita coisa. Eu ganho muito e gasto muito. É assim que funciona. Nós arrecadamos bastante dinheiro através do AdSense do YouTube nos vídeos monetizados. Depois, vêm as parcerias e acordos com marcas. Eu tenho taxas de cliques extremamente altas e um nível de confiança muito grande. Não faço muitos anúncios, mas, quando fazemos, somos bem pagos.
Tameez: Maior fonte de receita?
Spehar: Eu vivo da renda do nosso Substack. O Substack gera o dinheiro mais consistente, previsível e confiável. Para os criadores de notícias que estão começando, eu os encorajaria a descobrir como fazer isso enquanto mantêm um emprego real com carteira assinada. Foi o que eu fiz por anos, e ainda ganho boa parte do meu dinheiro com consultorias, palestras e eventos presenciais. Não é como se você ganhasse dinheiro apenas fazendo TikToks. Isso não existe.
Tameez: Seu estilo de vida?
Spehar: Rochester é um lugar com um custo de vida muito acessível. Eu sou dono da minha casa. Paguei US$ 330 mil nela, o que é um valor surreal para uma casa de 5 quartos no subúrbio. Como escolhi morar em Rochester, eu mesmo financio minhas passagens e hotéis com frequência para D.C., Nova York e qualquer outro lugar. Acho que o equilíbrio pesa muito mais a meu favor morando em Rochester e indo para as cidades grandes apenas quando preciso.
Tameez: É lucrativo?
Spehar: Acho que sei como administrar bem uma pequena empresa. Nós a mantemos da forma mais enxuta possível. O Jed, que trabalha comigo no Substack, ganha uma porcentagem da receita da plataforma. Conforme ela cresce, ele cresce junto comigo. Acho que isso é justo. Se você está entrando nesse mundo agora, não espere que o dinheiro seja nem de longe o que costumava ser.
Tameez: Custos inesperados?
Spehar: Advogados, contadores e seguro de responsabilidade civil. No ponto em que estou agora, se eu dissesse algo difamatório ou falso, provavelmente alguém tentaria me processar. Isso custa uns US$ 5.000 ou US$ 10 mil por ano em seguro de responsabilidade de mídia, o que te dá uma cobertura de US$ 1 milhão. É um saco; ninguém quer pagar por isso. Mas, se for preciso, você paga.
Administração. Se você quer alguém para atender seus telefonemas e gerenciar sua agenda… isso é valiosíssimo, mas pode custar caro. Edição é extremamente cara se você não souber editar por conta própria. Custa de US$ 250 a US$ 1.000 para ter um vídeo editado de forma totalmente profissional.
Tameez: Sua visão sobre jornalismo tradicional mudou?
Spehar: Eu sempre tive um enorme respeito pelo perigo das reportagens de campo e pela paciência que os repórteres precisam ter. Agora que estou no setor de forma mais direta, percebo que muitas das minhas frustrações como criador da “nova mídia” —em relação aos controladores (gatekeepers) e aos chefões bilionários da mídia que monopolizam nossos espaços de informação— são compartilhadas por âncoras, jornalistas, repórteres e fotojornalistas da mídia tradicional. Somos muito mais parecidos do que diferentes.
Tameez: Que lições você acha que o jornalismo tradicional pode aprender com os criadores de notícias e vice-versa?
Spehar: Acho que cabe a cada um de nós decidir isso e criar “terceiros espaços” para construirmos algo novo juntos. A mídia tradicional não precisa ser “mais parecida com o TikTok”. Os influenciadores digitais não precisam ser mais tradicionais. Há espaço suficiente para todos nós e, juntos, conseguimos cumprir a missão de dizer a verdade e cobrar responsabilidade de quem está no poder.
Tameez: Quais desafios aguardam os criadores de notícias em 2026?
Spehar: Financiamento. O mesmo que para todo mundo. Ser capaz de reconhecer a desinformação e a IA, e estabelecer e manter uma saúde mental estável enquanto vivenciamos em primeira mão as atrocidades cometidas pelo nosso governo em nossa economia, espaços comunitários, amigos e vizinhos. O desafio será abrir espaço para a alegria, para a descontração e para a autopreservação, a fim de continuar lutando no dia seguinte.
Hanaa’ Tameez é repórter titular do Nieman Lab, onde cobre inovação na indústria do jornalismo. Anteriormente, foi editora de newsletters na startup de mídia local WhereBy.Us e repórter de diversidade no jornal Fort Worth Star-Telegram, no Texas, cobrindo raça, identidade e equidade social.
Texto traduzido por Isadora Vila Nova. Leia o original em inglês.
O Poder360 tem uma parceria com 2 divisões da Fundação Nieman, de Harvard: o Nieman Journalism Lab e o Nieman Reports. O acordo consiste em traduzir para português os textos do Nieman Journalism Lab e do Nieman Reports e publicar esse material no Poder360. Para ter acesso a todas as traduções já publicadas, clique aqui.
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