'Esperamos por vestígios que nunca apareceram', diz filha de piloto de avião com 7 indígenas que sumiu na Amazônia há 3 anos

'Esperamos por vestígios que nunca apareceram', diz filha de piloto de avião com 7 indígenas que sumiu na Amazônia há 3 anos
Aeronave de pequeno porte que desapareceu em 2018 durante viagem entre aldeia e município no sul do Amap√° nunca foi encontrada. Fl√°via Moura em foto ao lado pai Jeziel Barbosa

Arquivo Pessoal

"Todos sabiam que ele era um excelente piloto, e logo ia dar notícias". O trecho de uma conversa com um irm√£o logo após o desaparecimento expressa a angústia que até hoje, três anos depois, toma de Fl√°via Moura, uma das cinco filhas de Jeziel Barbosa de Moura, à época com 61 anos. Ele era o piloto de uma viagem que partiu, mas nunca chegou ao destino final: o desaparecimento de um monomotor com ele e mais 7 indígenas que partiram da aldeia Mataware no Parque do Tumucumaque, no Amap√°, com destino a Laranjal do Jari, município no extremo sul do estado.

O desaparecimento completou exatos três anos na quinta-feira (2) e até hoje as famílias nunca tiveram vestígios do avi√£o e nem dos passageiros do voo, que deixou de ser rastreado 28 minutos após a decolagem.

A ausência de informa√ß√Ķes sobre a viagem, em plena floresta amazônica, fez com que as buscas surtissem pouco efeito por terem acontecido numa √°rea muito extensa, de cerca de 300 quilômetros entre o ponto de partida e o de chegada.

Sem qualquer vestígio na mata, após 123 horas de voo e 12 mil campos de futebol percorridos, a For√ßa Aérea Brasileira (FAB) suspendeu a procura. Apesar dos pontos de partida e chegada serem no Amap√°, a maior parte do percurso é feita sobre o território do Par√°, em fun√ß√£o da geografia.

Local de sumi√ßo de avi√£o na Floresta Amazônica

Arte/G1

A esperan√ßa de encontrar os passageiros durou duas semanas para os órg√£os oficiais, mas seguiu durante muito tempo para Fl√°via. Ela diz hoje ser mais "racional", apesar de carregar a dor da perda do pai e de ter feito o m√°ximo para a retomada da procura na época.

"Sobre ter esperan√ßas, hoje n√£o tenho mais. Tive esperan√ßa no primeiro ano, no segundo ano, agora no terceiro ano precisamos ser mais racionais, saber que nesses anos todos nada foi encontrado, nenhum vestígio sequer foi encontrado. A esperan√ßa acabou, aprendemos a conviver com falta dele, a conviver com saudade que ele deixou", contou a filha que ainda vive em Laranjal do Jari, onde moravam.

Com mais de 30 anos de experiência, Jeziel fazia viagens rotineiras transportando indígenas de aldeias isoladas no estado para a √°rea urbana, onde geralmente resolviam problemas banc√°rios, previdenci√°rios e compravam alimentos e acessórios.

No voo desaparecido ele transportava uma família de índios da etnia Tiriyó: professor, esposa e três filhos, uma aposentada e o genro dela.

Apesar da vivência nos ares da regi√£o isolada, Fl√°via conta que o pai alertou, uma semana antes de desaparecer, ela e uma irm√£ sobre a √°rea de floresta completamente desabitada e os perigos que estava suscetível.

"Era como se estivesse se despedindo, ou sentindo algo. Nos falou que na regi√£o que estava voando era muito perigoso, a mata era muito extensa, mata virgem, difícil acesso, falou que se um dia ele caísse l√° nunca mais iríamos encontrar, devido ao lugar ser de difícil acesso. Porém, disse que ia feliz fazendo o que ele mais amava na vida, que era voar, pois voar era a paix√£o, prazer, tudo pra ele. Ele amava a profissional dele", lembrou a filha.

Piloto Jeziel Moura ao lado do monomotor que desapareceu na Amazônia

Fl√°via Moura/Arquivo Pessoal

A viagem, que partiu num domingo, fez a última comunica√ß√£o às 12h06. O piloto avisava a um outro piloto da empresa de avia√ß√£o que precisaria fazer um pouso de emergência.

No dia 4 de dezembro, a Funda√ß√£o Nacional do Índio (Funai) caracterizou o voo como “clandestino”. A falta de pistas autorizadas na regi√£o e a n√£o comunica√ß√£o da viagem, segundo a Funai, apontam a irregularidade. Fl√°via assegurou que o pai estava com as documenta√ß√Ķes regulares.

Após o fim das buscas em 17 de dezembro, uma mobiliza√ß√£o de entidades indígenas, familiares e políticos cobrou a retomada da procura, mas, segundo as For√ßas Armadas, n√£o havia suporte de aeronaves para cobrir uma √°rea t√£o extensa.

Reportagem da época mostra busca de entidades indígenas pelo retorno das buscas

Dias depois, por conta própria, diversos grupos de indígenas partiram mata a dentro por conta própria em busca de vestígios, mas nada foi encontrado até hoje. A esperan√ßa de um pouso de emergência no meio da mata com os passageiros vivos foi se apagando ao longo dos meses.

"E lembrar que fiz o que podia fazer até onde dava, pedi v√°rias vezes para o retorno das buscas. Os órg√£os competentes apenas me falavam que fizeram o que podiam, que os protocolos foram feitos de acordo, que o tempo de buscas estava de acordo e que só poderiam voltar se caso tivesse algum vestígio. Porém, até hoje esperamos por esses vestígios que nunca apareceram", lamenta.

O impacto na família da perda de Jeziel interrompeu um novo rumo que a família buscava, que era retornar à terra natal dele, na Paraíba. Algo que planejavam para o mês seguinte: janeiro de 2019.

O motivo para volta às origens era o estado de saúde da m√£e de Jeziel, avó de Fl√°via, que estava doente na época. "Esse ano minha vó faleceu. Com imensa tristeza, desde que ela soube do ocorrido n√£o foi mais a mesma, se entregou para a doen√ßa, caiu em depress√£o, pois eram muito apegados. Meu pai era o ca√ßula dela", diz Fl√°via.

Jeziel ao lado da m√£e, com quem pretendia se reencontrar um mês após o dia do desaparecimento

Arquivo Pessoal

Além dos quatro filhos, Jeziel deixou 5 netos e uma saudade que o tempo dificilmente vai apagar. Fl√°via relembrou a última conversa que teve com o pai antes do acidente.

"E na noite anterior trocamos mensagem de boa noite, no qual ele perguntou o que teria para o almo√ßo. Me falou que ia sair pra voar cedo no dia 2, mas que retornaria na hora do almo√ßo. Só sei que um dia iremos nos reencontrar", finalizou Fl√°via, que abalada preferiu n√£o gravar entrevista com a Rede Amazônica e respondeu por texto as perguntas feitas pela reportagem.

O g1 n√£o localizou familiares dos indígenas desaparecidos no voo para falar sobre os três anos do desaparecimento, mas dias após o sumi√ßo da aeronave, Sataraki Akuriyó, filho da passageira mais velha da viagem, esperava pelo reencontro com a m√£e.

"Minha m√£e n√£o vou ver mais, por isso queria encontrar ao menos o avi√£o ou o corpo falecido. Desde que eles caíram estou sofrendo muito", limitou-se a dizer.

Sataraki Akuriyó, filho da passageira mais velha do voo

Rede Amazônica/Reprodu√ß√£o

Investigação

O relatório final do caso, investigado pelo Servi√ßos Regional de Investiga√ß√£o e Preven√ß√£o de Acidentes (Seripa I), vinculado à FAB, apontou informa√ß√Ķes inconclusivas em fun√ß√£o do avi√£o n√£o ter sido localizado.

Foi identificado que Jeziel estava com certificado médico e habilita√ß√£o para pilotar v√°lidas e que a aeronave prefixo PT-RDZ estava com o Certificado de Aeronavegabilidade (CA) ativo.

"A aeronave n√£o chegou ao seu destino, os destro√ßos n√£o foram encontrados e ela foi considerada desaparecida após o encerramento das buscas no dia 17 de dezembro de 2018. (...) Devido à falta de informa√ß√Ķes disponíveis, esta investiga√ß√£o foi interrompida", detalha o relatório.

Apesar da documenta√ß√£o v√°lida, o voo foi considerado irregular pela Funai em fun√ß√£o da falta de pistas autorizadas para pouso e decolagens na Amazônia. Apesar de usadas para o transporte de servi√ßos médicos e de saúde, muitas n√£o s√£o homologadas na Agência Nacional de Avia√ß√£o Civil (Anac).

A necessidade de regulariza√ß√£o motivou na época uma a√ß√£o do Ministério Público Federal (MPF) que exigiu da Anac a n√£o cobran√ßa para homologa√ß√£o desses espa√ßos.

De acordo com o MPF, em todo o Brasil existem 249 pistas de pouso n√£o regularizadas em terras indígenas. No Amap√° s√£o 17 pistas irregulares.

O MPF calculou que os custos pra regularizar as pistas em terras indígenas girem em torno de R$ 11 milh√Ķes.

Veja o plant√£o de últimas notícias do G1 Amap√°

ASSISTA abaixo o que foi destaque no AP: