O crescimento urbano de Macapá e Santana tem revelado uma realidade que vai além dos números: cada vez mais famílias estão vivendo em áreas precárias, sem acesso adequado a serviços básicos e infraestrutura. Um levantamento baseado em dados do IBGE, divulgado pelo portal ap.urbe, mostra que entre 2010 e 2022 houve uma expansão acelerada desses assentamentos nas duas maiores cidades do Amapá.
Segundo o IBGE, esses territórios são caracterizados por ocupação irregular, ausência de serviços públicos essenciais e moradias construídas em condições inadequadas. Já a ONU-Habitat amplia essa definição, destacando também a falta de segurança da posse e de condições dignas de habitabilidade. Na prática, são espaços que refletem o crescimento desordenado das cidades e a dificuldade histórica de planejamento urbano.
Os números revelam a dimensão do problema. Em Macapá, a população vivendo em assentamentos precários saltou de 63 mil pessoas, em 2010, para 127 mil em 2022 — um aumento de 101%. Em Santana, o crescimento também foi expressivo: de 17 mil para 31 mil pessoas no mesmo período, uma alta de 82%.
Quando o recorte é feito pelo número de moradias, o avanço é ainda mais acelerado. Em Macapá, os domicílios nessas áreas passaram de 13 mil para 38 mil, um crescimento de 192%. Já em Santana, o salto foi de 3 mil para 9 mil residências, representando aumento de 200%.
Mais do que estatísticas, esses dados representam milhares de famílias que convivem diariamente com a falta de saneamento, ruas sem pavimentação, dificuldade de acesso à água tratada e insegurança jurídica sobre suas próprias casas.
Especialistas apontam que esse avanço não é apenas consequência do crescimento populacional. Ele também revela a ausência de políticas públicas estruturadas e contínuas na área da habitação ao longo das últimas décadas.
Na avaliação do estudo, programas habitacionais importantes, como o Minha Casa Minha Vida, embora relevantes, não foram suficientes para acompanhar a complexidade do déficit habitacional e o ritmo de expansão urbana local. Sem alternativas acessíveis de moradia formal, muitas famílias acabam recorrendo a ocupações irregulares como única opção.
O resultado é a expansão territorial desses assentamentos, que deixam de ser ocupações isoladas e passam a se consolidar como bairros inteiros, muitas vezes sem o mínimo de infraestrutura.
O avanço dos assentamentos precários é, acima de tudo, um reflexo das desigualdades urbanas. Como aponta o urbanista Mike Davis, esses espaços são resultado direto de uma urbanização acelerada e sem planejamento, onde a cidade cresce, mas não inclui a todos.
Sem ações efetivas, a tendência é de agravamento do problema. A falta de políticas diversificadas — como regularização fundiária, urbanização de áreas já ocupadas e investimentos em infraestrutura — pode aprofundar ainda mais as desigualdades.
Para especialistas, o caminho passa por políticas públicas mais robustas, integradas e contínuas, capazes de garantir não apenas moradia, mas o direito pleno à cidade. Porque, no fim das contas, por trás de cada número há histórias reais de pessoas que lutam diariamente por dignidade, segurança e um lugar adequado para viver.
O post Cidades que crescem sem estrutura: assentamentos precários avançam em Macapá e Santana apareceu primeiro em A Gazeta do Amapá.
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